Short story
O Tijolo Assinado
A migrant from Paraíba who helped build a skyscraper on Avenida Paulista in 1969 hides a secret in its walls.
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Words to know (12)
- o pau de arara · open truck that carried migrants from the Northeast
- a rede · hammock
- o servente · construction laborer
- o torcicolo · stiff neck
- o cabra · guy, fellow (Northeast)
- assentar · to lay (bricks)
- o reboco · plaster
- o arranha-céu · skyscraper
- variar · to ramble, lose one's marbles (informal)
- a fiada · course, row of bricks
- o pedreiro · bricklayer
- manso · tame, gentle
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Quando Severino desceu do pau de em São Paulo, em março de 1969, trazia uma mala de papelão, uma enrolada e o endereço de um primo escrito a lápis num pedaço de saco de farinha. O primo tinha se mudado. A ele armou, nas primeiras noites, entre duas colunas de um viaduto, ao lado de outros homens que falavam com o mesmo sotaque arrastado de Campina Grande, Caruaru, Crato: gente que ainda tinha poeira do sertão atrás das orelhas.
Uma semana depois, estava trabalhando de numa obra na Avenida Paulista. Era um prédio de vinte e dois andares, e Severino, que nunca tinha visto nada mais alto que a torre da igreja de Patos, passou o primeiro dia com de tanto olhar para cima. O mestre de obras, um baiano chamado Jurandir, riu dele: “Olha pro chão, que é lá que tu vai cair se ficar sonhando.”
Severino aprendeu rápido. Aprendeu a tijolo, a ler planta, a dobrar ferro, e aprendeu também a engolir as piadas: em São Paulo, todo nordestino era baiano, mesmo que tivesse vindo da Paraíba. Mandava metade do salário para a mãe e, com a outra metade, comia, pagava o quarto numa pensão no Brás e, aos domingos, ia ao forró dançar com uma moça de Garanhuns que depois virou sua mulher.
No dia em que a obra chegou ao último andar, Severino fez uma coisa que nunca contou a ninguém. Pegou um prego, riscou num tijolo o seu nome, o ano e a palavra PATOS, e o tijolo na parede da escada de incêndio do vigésimo segundo andar. “Pro prédio saber quem levantou ele”, pensou. Depois veio o e o segredo sumiu.
Cinquenta anos se passaram. Severino ficou viúvo, criou três filhos na Zona Leste, viu o forró sair de moda e voltar, viu a Paulista trocar os casarões por bancos e os bancos por ciclovias. Nunca mais entrou no prédio. Às vezes passava de ônibus em frente e tinha vontade de apontar, mas sentia vergonha: quem ia acreditar que aquele velho de boné tinha erguido um
Foi a neta, Raíssa, quem trouxe a notícia. Arquiteta recém-formada, trabalhava num escritório contratado para reformar um edifício antigo da Paulista que seria transformado em hotel. Num almoço de domingo, mostrou fotos no celular. Severino largou o garfo. “Esse aí eu conheço por dentro”, disse, e todos riram, achando que o avô estava
Ele não insistiu. Mas na segunda-feira Raíssa recebeu um áudio de sete minutos com instruções precisas: escada de incêndio, último lance, parede da esquerda, terceira a contar do piso, quarto tijolo a partir do canto. Ela achou graça, depois achou estranho que alguém se lembrasse de tanto detalhe, e no fim da semana pediu a um que raspasse o naquele ponto.
O tijolo estava lá. As letras, tortas e fundas, tinham resistido a meio século: SEVERINO J. DA SILVA, 1969, PATOS. Raíssa ficou um tempo parada na escada, sem conseguir tirar a foto. Quando finalmente mandou a imagem para o avô, a resposta veio em menos de um minuto, por escrito, coisa rara: “Eu não disse? Agora deixa ele lá. Tem gente que precisa de prova; prédio, não.”
O hotel foi inaugurado no ano seguinte. No saguão, há uma pequena placa de bronze que nenhum hóspede lê, em homenagem “aos trabalhadores nordestinos que construíram São Paulo”. Foi ideia da arquiteta. O avô achou exagero, mas foi à inauguração de terno e, quando ninguém estava olhando, passou a mão na placa como quem acaricia o pescoço de um bicho
Comprehension check
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1. Why did Severino sleep under a viaduct when he first arrived?
2. What did Severino do on the day the building reached its top floor?
3. How did Raíssa find the brick?
4. What did Severino want done with the brick?