Short story
O Último Aboio
When an old cowherd in the sertão breaks his leg and the cattle scatter, his city-bred grandson has to call them home.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- o aboio · cowherd's wordless call to the cattle
- aboiar · to sing the cattle call
- o lajedo · flat rocky outcrop
- a grota · gully, ravine
- a sineta · small bell
- a estiagem · dry spell, drought
- o carcará · caracara (bird of prey of the sertão)
- o mugido · moo
- o chocalho · cowbell
- a novilha · heifer
- a mangação · mockery (Northeast)
- o tamborete · stool
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No sertão do Pajeú, em Pernambuco, há quem diga que gado não entende palavra, só entende voz. Seu Zé Cirilo, vaqueiro desde menino, concordava pela metade. “Entende voz, sim. Mas não é qualquer voz, não. É a voz de quem dá de comer.” Durante cinquenta anos, toda tarde, ele subia num atrás da casa e soltava o um canto comprido, sem letra, que começava grave, subia, tremia no alto e morria devagar, como a poeira que assenta depois que o vento passa.
E o gado vinha. Vinham as vacas magras da seca, os bezerros desconfiados, até o touro Ventania, que não respeitava cerca nem cachorro. Vinham da caatinga cinzenta, das dos leitos de riacho que só tinham água na lembrança, e se juntavam no curral como alunos que ouvem a da escola.
O filho de Zé Cirilo, Antônio, não quis saber de gado. Foi para São Paulo aos dezoito anos, trabalhou numa fábrica de autopeças, casou, separou e um dia mandou o filho, Wesley, passar uma temporada com o avô, “pra ver se endireita”. O menino tinha quinze anos, fones de ouvido permanentemente enfiados na cabeça e um desprezo educado por tudo o que não tivesse wi-fi. Achava o uma coisa constrangedora. Numa tarde, gravou o avô no celular, para mostrar aos amigos de São Paulo e rir junto com eles.
Em outubro, no pior da Zé Cirilo caiu do cavalo. Foi levado de caminhonete para o hospital de Serra Talhada, com a perna quebrada em dois lugares e o orgulho em vários. Na mesma semana, uma ventania derrubou um trecho da cerca do fundo, e o gado se espalhou pela caatinga atrás de qualquer folha verde. Os vizinhos ajudaram a procurar e acharam uns poucos animais. Os outros, uns quarenta, tinham sumido no mato seco, onde um bicho perdido morre de sede em três dias.
Wesley tentou. Subiu no e gritou. Gritou de novo, imitando o avô, e a voz saiu fina, quebrada, ridícula até para ele mesmo. Nenhum boi apareceu. Um pousou numa umburana ali perto e ficou olhando para ele com o que pareceu desdém.
Foi então que se lembrou da gravação. Procurou no celular, com o coração aos pulos, e achou: dois minutos e quarenta segundos do de Zé Cirilo, com o chiado do vento por cima. Pôs o volume no máximo, ergueu o aparelho acima da cabeça e esperou. Por um bom tempo, nada. Depois, lá longe, um Outro. Um E, saindo do mato com a cara de quem tinha sido chamada para o jantar, a vaca Estrela, seguida de duas de um bezerro e, por último, como quem não quer nada, do touro Ventania.
Wesley passou a tarde tocando a gravação de meia em meia hora, até que o curral estivesse cheio de novo. Trinta e sete animais voltaram; três nunca apareceram. À noite, ligou para o hospital e contou tudo ao avô, atropelando as palavras. Do outro lado da linha, houve um silêncio tão comprido que ele pensou que a ligação tinha caído. Depois ouviu uma coisa que nunca tinha ouvido: o avô rindo, um riso rouco, demorado.
“Tu me gravou, foi? Pra fazer com teus amigos, aposto.” O menino ficou vermelho, sozinho na cozinha. “Pois ainda bem”, continuou o velho. “Mas escuta aqui, Wesley. Gado não é besta. Uma vez, duas vezes, ele vem pela gravação. Na terceira, percebe que tem coisa errada. Tu vai ter que aprender de verdade.”
Zé Cirilo voltou para casa em dezembro, de muletas, quando as primeiras chuvas já tinham pintado a caatinga de verde. Como não podia subir no sentava-se num na porta e dava as aulas dali. O neto desafinava, recomeçava. Antônio, que veio de São Paulo para o Natal pela primeira vez em nove anos, encontrou o filho de chapéu de couro em cima de uma pedra, cantando para o nada, e o pai na porta, de olhos fechados, corrigindo uma nota. Ninguém sabe se foi o canto do menino ou a fome do gado, mas naquela tarde, pela primeira vez, a Estrela veio.
Comprehension check
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1. According to Zé Cirilo, what voice do cattle obey?
2. Why had Wesley recorded his grandfather's call?
3. What did Zé Cirilo warn Wesley about the recording?
4. What happens at the end of the story?