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Short story

O Filho do Boto

A biologist counting pink river dolphins on the Solimões hires a boatman who claims a strange family tie to them.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (11)
  • o boto · Amazon river dolphin
  • curtido · weathered, tanned
  • o motor de rabeta · long-tail motor (for small boats)
  • o igarapé · narrow forest creek
  • a barbatana · fin
  • a palafita · house on stilts
  • mana · sis (friendly address, North)
  • o velório · wake (before a funeral)
  • o regatão · itinerant river trader
  • encantado · enchanted, a magical being
  • o remanso · backwater, still stretch of river

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A bióloga chegou a Tefé com uma planilha, um binóculo e a certeza de que sabia o que eram os Chamava-se Camila, era de Campinas e passaria três meses contando golfinhos cor-de-rosa num trecho do rio Solimões. Precisava de um barqueiro, e todos na cidade indicaram o mesmo nome: seu Raimundo, que conhecia cada daquela água “pelo nome e pelo sobrenome”.

Raimundo tinha a pele de sol, um chapéu de palha comido nas pontas e uma canoa com motor de que tossia mais que gente gripada. Nas primeiras manhãs, falou pouco. Pilotava de pé, lendo o rio como quem lê jornal: um redemoinho aqui, um tronco submerso ali, a cor da água mudando onde o despejava sua tinta escura no barro do Solimões.

Os apareciam aos pares, aos trios, rosados como chiclete mascado. Camila anotava. Raimundo corrigia. “Esse aí tu já contou ontem. É a Cicatriz, tem um corte na Aquele outro é filho dela.” Ela duvidou, conferiu as fotos à noite e descobriu que ele tinha razão. Na terceira semana, já não anotava nada sem perguntar primeiro.

Numa tarde de chuva grossa, abrigados debaixo do telhado de uma casa de Camila perguntou sobre a lenda. Sabia de cor a versão dos livros: o que vira um moço bonito, de chapéu branco, aparece nas festas de São João, dança com a moça mais bonita e some antes do amanhecer, deixando-a grávida. Raimundo acendeu um cigarro e olhou para o rio. “Pois eu sou filho do disse.

Ela riu, achando que fosse brincadeira. Ele não riu. Contou que a mãe tinha dezesseis anos quando engravidou, e que a família inteira, a comunidade inteira, aceitou a explicação sem perguntar mais nada. “Aqui é assim, O leva a culpa de muita coisa. É melhor pra todo mundo. Ninguém precisa brigar, ninguém precisa casar à força, e a criança nasce com uma história bonita em vez de uma vergonha.”

Só aos quarenta anos, no da mãe, Raimundo soube a verdade, sussurrada por uma tia: o pai era um um desses comerciantes que subiam o rio de barco vendendo sal, tecido e cachaça. Tinha mulher e filhos em Manaus. Nunca voltou. “E tu sabe o que eu senti?”, perguntou Raimundo. “Pena. Pena de mim, porque eu preferia o O pelo menos era O era só um homem.”

A chuva parou de repente, como param as chuvas da tarde na Amazônia, de uma vez, sem aviso. O rio ficou liso. Uma cabeça rosada apareceu perto da canoa, soprou e afundou de novo. Raimundo apontou com o queixo. “Aquele ali é o Doutor. Velho, vive sozinho nesse há vinte anos.” Camila perguntou por que Doutor. Ele deu de ombros. “Porque é sabido. Nunca chegou perto de rede de pescador.”

No fim dos três meses, Camila entregou ao instituto um relatório com cento e doze identificados, trinta a mais do que o estudo anterior. Nos agradecimentos, escreveu o nome completo de Raimundo, coisa que os biólogos raramente faziam com barqueiros. Ele não lia bem, e ela leu a página em voz alta, na beira do rio, no dia da despedida.

Raimundo ouviu tudo em silêncio. Depois pediu a caneta e, na margem do papel, com letra grande e trêmula, acrescentou umas palavras depois do próprio nome. Camila só as leu quando o barco já tinha se afastado: “Raimundo Nonato dos Santos, filho do

Comprehension check

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1. Why did everyone in Tefé recommend Raimundo?

2. According to Raimundo, why does the community accept the boto legend?

3. How did Raimundo feel when he learned his father was a river trader?

4. What did Raimundo add to the acknowledgments page?