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Short story

Reunião de alinhamento

A satirical account of a three-hour corporate meeting in a glass tower on São Paulo's Faria Lima, interrupted by an intern's simple question.

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Words to know (12)
  • a pauta · agenda
  • ousar · to dare
  • ensaiar · to rehearse
  • o orçamento · budget
  • o canteiro · flowerbed
  • a coluna · spine, back
  • o prazo · deadline
  • o liquidificador · blender
  • o acompanhamento · follow-up
  • a escrivã · court clerk (woman)
  • o susto · fright, shock
  • a besteira · something silly, nonsense

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A reunião estava marcada para as nove, na sala Ipê, décimo quarto andar de um prédio de vidro da Faria Lima, e tinha como segundo o convite, “alinhamento estratégico pré-kickoff do planejamento do ciclo”. Eu li a frase três vezes no café da manhã e cheguei à conclusão, que não compartilhar com ninguém, de que se tratava de uma reunião para decidir quando seria a reunião. Aceitei o convite, naturalmente. Recusar convite de reunião, na nossa empresa, é como recusar a comunhão numa missa: ninguém fala nada, mas todo mundo anota.

Às nove e doze, estávamos todos na sala, onze pessoas e duas telas, com quatro participantes remotos de câmera desligada, que é a forma corporativa de estar presente em espírito. O Rodrigo, gerente sênior de transformação, abriu os trabalhos com uma frase que ele claramente tinha “Gente, antes de mais nada, quero que este seja um espaço seguro.” Ninguém sabia contra o quê. Mas concordamos com a cabeça, porque segurança nunca é demais.

Durante a primeira hora, discutimos a palavra “ciclo”. A Fernanda, do marketing, achava que ciclo dava a ideia de repetição e sugeria “jornada”, que dava a ideia de propósito. O pessoal de finanças preferia “período”, que dava a ideia de O Rodrigo propôs um exercício de post-its para mapear as dores de cada área em relação à nomenclatura. Fizemos. A parede da sala Ipê ficou parecendo um de flores amarelas. A minha dor, que escrevi em letra pequena para ninguém ler, era a

Na segunda hora, alguém falou em sinergia, e a reunião ganhou vida. Sinergia, para quem não frequenta prédios de vidro, é aquilo que acontece quando duas áreas que não se falam são obrigadas a se falar numa reunião e descobrem que discordam em coisas que nem sabiam que existiam. O Marcelo, de operações, perguntou, com toda a educação, quem era o dono do tema. Houve um silêncio. Ser dono de um tema, entre nós, é uma honra que todos disputam até o momento exato em que surge um

Lá pelas onze e meia, um dos participantes remotos ligou o microfone por engano, e ouvimos, com nitidez, o barulho de um e uma voz de criança perguntando se ia ter macarrão. O Rodrigo aproveitou o momento para falar de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, um dos pilares da nossa cultura. Depois marcou uma reunião de para as sete da noite de sexta-feira.

Foi então que a Bruna, estagiária havia três semanas, sentada no canto com um caderno onde anotava tudo com a seriedade de uma levantou a mão. Ninguém levanta a mão na nossa empresa; a gente interrompe com elegância. Mas ela levantou, e o gesto foi tão inesperado que o Rodrigo lhe deu a palavra por puro reflexo escolar. “Desculpa, é só uma dúvida”, disse Bruna. “O que é que a gente faz, exatamente? A empresa, eu digo. O que a gente vende?”

Seria bonito dizer que todos responderam ao mesmo tempo. Não foi o que aconteceu. Houve um silêncio de catedral. O Marcelo olhou para a Fernanda. A Fernanda olhou para o Rodrigo. O Rodrigo olhou para a parede de post-its, como se a resposta estivesse escrita em algum deles. Eu, que trabalho ali há sete anos, abri a boca e percebi, com um genuíno, que ia dizer “soluções”. Fechei a boca. Um dos participantes remotos caiu da chamada. Talvez tenha sido a internet. Talvez não.

O Rodrigo, que não chegou a gerente sênior de transformação por acaso, recuperou-se primeiro. Elogiou a pergunta. Disse que era exatamente esse tipo de provocação de que a empresa precisava, que aquilo era mentalidade de dono, e propôs, com entusiasmo crescente, um grupo de trabalho para responder à questão da Bruna com a profundidade que ela merecia. O grupo se reuniria a partir da semana seguinte. Haveria um kickoff. Antes do kickoff, naturalmente, uma reunião de alinhamento.

Saímos da sala Ipê ao meio-dia e quarenta, com fome e com propósito. No elevador, a Bruna me perguntou baixinho se tinha falado Eu disse que não, que tinha sido a pergunta mais importante da história da empresa e que, justamente por isso, ela nunca seria respondida. Ela anotou no caderno. Acho que vai longe.

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the narrator conclude the meeting was really about?

2. What was the narrator's real "pain" on his post-it?

3. What did Bruna ask?

4. How did Rodrigo respond to Bruna's question?