Short story
A avó de Alcântara
In 2071, an engineer at the space elevator in Maranhão is sent to persuade the most stubborn resident of all to move: her own grandmother.
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Words to know (12)
- o cabo · cable
- quilombola · of a community descended from escaped enslaved people
- o embarque · boarding
- teimoso · stubborn
- a rede · hammock
- a indenização · compensation
- a remoção · forced removal, relocation
- o galpão · warehouse, shed
- o processo · lawsuit
- comemorar · to celebrate
- o terço · rosary
- encostar · to rest, lean (against)
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Em 2071, o Elevador Equatorial de Alcântara já levava cargas até a órbita havia nove anos, e a pequena cidade do Maranhão, que durante séculos tinha vivido de pesca e de lembranças, se transformara num dos lugares mais importantes do planeta. Hotéis de vidro cresciam ao lado de casarões coloniais em ruínas, e o do elevador, fino como um fio de cabelo visto de longe, subia do mar até desaparecer nas nuvens.
Raíssa Mendes era engenheira da empresa que administrava o elevador e tinha nascido ali, numa comunidade a vinte quilômetros da base. Quando a diretoria decidiu construir uma segunda estação de ela recebeu uma tarefa que não queria: convencer os últimos moradores da área a aceitar a mudança. Entre eles estava a pessoa mais que ela conhecia, a própria avó, Dona Benedita, de noventa e um anos.
“Você veio como neta ou como funcionária?”, perguntou a avó, sem sair da assim que Raíssa entrou. A engenheira tentou explicar as vantagens: uma casa nova, com ar-condicionado, hospital perto, uma generosa. Dona Benedita ouviu tudo calada, balançando a com o pé. Depois disse: “Na década de oitenta, quando fizeram a base de foguetes, tiraram a minha mãe da beira do mar e prometeram exatamente as mesmas coisas. Ela morreu sem nunca mais ver o mar da janela.”
Raíssa voltou para o escritório envergonhada. Nos dias seguintes, pesquisou os arquivos antigos e encontrou os documentos da primeira famílias de pescadores levadas para longe da costa, longe dos peixes, longe dos cemitérios dos avós. Percebeu que, se a empresa insistisse, a história se repetiria quase igual, só que com tecnologia melhor. E ela seria a pessoa que bateu na porta.
Então fez algo que nenhum engenheiro da empresa tinha feito: refez o projeto. Passou três semanas calculando, desenhando, discutindo com colegas que a achavam sentimental. No fim, mostrou à diretoria que a nova estação poderia ser construída quinhentos metros mais ao norte, sobre uma área ocupada por abandonados. Custaria um pouco mais, mas a comunidade ficaria onde estava, e a empresa evitaria um que poderia durar anos.
Para surpresa de todos, a proposta foi aprovada. Quando Raíssa contou a notícia, Dona Benedita não Ficou um tempo olhando o que subia para o céu e perguntou: “E lá em cima, menina, dá pra ver o mar?” Raíssa riu. “Dá pra ver o mar inteiro, vó. O Atlântico, a África, tudo.” A avó pensou um pouco. “Então, quando inaugurarem essa estação nova, eu quero ir.”
Ninguém levou a sério, a não ser Raíssa. Seis meses depois, numa manhã de julho, a cabine panorâmica subiu com dezoito passageiros, entre eles uma senhora de noventa e dois anos com um vestido de festa e um na mão. Lá de cima, a cem quilômetros de altura, a Terra se curvava, azul e branca, contra o escuro. Dona Benedita a testa no vidro e ficou muito tempo calada. “Minha mãe ia gostar daqui”, disse por fim. “Tem mar pra todo lado, e ninguém pode tirar a gente da janela.”
Comprehension check
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1. What task was Raíssa given?
2. Why did Dona Benedita refuse to move?
3. What solution did Raíssa find?
4. What did Dona Benedita ask for when she heard the news?