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Short story

Memória emprestada

In a future Belo Horizonte where people can buy other people's memories, a man who has never seen the sea pays for someone's first day at the beach.

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Words to know (12)
  • a preguiça · laziness
  • a filial · branch (of a company)
  • o doador · donor
  • a touca · cap
  • descalço · barefoot
  • agachar-se · to crouch down
  • a canela · shin
  • cantarolar · to hum
  • espantar · to scare away
  • a cantiga de ninar · lullaby
  • o asilo · nursing home
  • perdoar · to forgive

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Vinícius Rocha tinha quarenta e um anos e nunca tinha visto o mar. Não era falta de oportunidade, exatamente: era uma mistura de trabalho, falta de dinheiro e uma antiga que ele não sabia explicar. Por isso, quando a Memórias Doadas abriu uma em Belo Horizonte, em 2060, ele foi um dos primeiros clientes. A empresa vendia lembranças reais, gravadas por anônimos, que o cliente podia viver durante quinze minutos como se fossem suas.

O catálogo era enorme: “Primeiro beijo numa festa junina”, “Gol de título no Mineirão”, “Nascimento de uma filha”. Vinícius escolheu, sem pensar muito, “Primeira vez no mar, Guarapari, 1995”. A atendente explicou que as memórias eram editadas apenas para retirar nomes completos e endereços, por questões legais. “Se o senhor sentir qualquer desconforto, é só levantar a mão”, disse, enquanto colocava a de eletrodos na cabeça dele.

De repente, ele era um menino de uns oito anos, segurando a mão de um homem grande que cheirava a cigarro e protetor solar. A areia queimava os pés. Então o mar apareceu, enorme, barulhento, verde e azul ao mesmo tempo, muito maior do que qualquer coisa que ele tivesse imaginado. O menino ficou paralisado, com medo e encantado. O homem se ao lado dele e disse: “Calma, Gê. O mar não morde. Ele só é grande.”

Vinícius sentiu a água fria nas o sal na boca, o riso do menino misturado ao barulho das ondas. Foi então que o menino começou a uma música para o medo, e Vinícius sentiu o coração parar. Conhecia aquela melodia. Era a de que a mãe dele cantava quando ele era pequeno, a única coisa que, segundo ela, o pai tinha deixado quando foi embora de casa. “Ele cantava isso pra você toda noite”, ela dizia. “Aprendeu com a avó dele, em Valadares.”

No fim da lembrança, o menino olhava para o homem e prometia, muito sério: “Quando eu tiver um filho, vou trazer ele aqui também.” A tela escureceu. Vinícius tirou a com as mãos tremendo e pediu para falar com o gerente. Queria saber quem era o O gerente foi educado, mas firme: a lei não permitia revelar a identidade. Só podia dizer que a memória tinha sido vendida dois anos antes, por um homem idoso que precisava de dinheiro.

Vinícius saiu da clínica e ficou horas sentado numa praça. Se o pai precisava de dinheiro a ponto de vender a melhor lembrança da própria infância, então estava vivo, velho e sozinho. O nome dele era Geraldo, isso a mãe sempre dissera. Gê. A mãe falava de Valadares. Com essas três informações e muita paciência, levou menos de um mês para encontrar o endereço de um Geraldo Rocha, de setenta e três anos, num de Governador Valadares.

O encontro foi mais difícil do que ele imaginava. O velho pediu desculpas, chorou, tentou explicar por que tinha ido embora e não conseguiu. Vinícius não sabia se conseguiria Mas sabia uma coisa, e disse antes de ir embora: “O senhor vendeu a lembrança, mas a promessa não estava à venda.” Em janeiro, os dois desceram juntos para Guarapari. Na beira do mar, foi o filho quem segurou a mão do pai, que já tinha esquecido como era a sensação da água. “Calma, pai”, disse Vinícius, com os pés molhados pela primeira vez. “O mar não morde. Ele só é grande.”

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1. What did the company Memórias Doadas sell?

2. What made Vinícius's heart stop during the memory?

3. What was the manager allowed to tell him?

4. What did Vinícius do in January?