Short story
O robô que aprendeu forró
An old accordion player in Caruaru wants nothing to do with the care robot his daughter sends him, until a power outage changes things.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- a sanfona · accordion
- o sanfoneiro · accordion player
- a babá · nanny
- a lata · tin can
- a recusa · refusal
- a tomada · outlet
- trancar · to lock (in)
- faltar luz · to have a power outage
- coladinho · cheek to cheek, very close
- fingir · to pretend
- o arraial · June festival fair
- encomendar · to order
Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.
Quando a filha mandou o robô de São Paulo, seu Expedito Lins, oitenta e dois anos, viúvo, de forró, deixou a caixa fechada no meio da sala durante uma semana inteira. “Eu não preciso de de disse ao telefone. Mas Juliana, que tinha medo de que o pai caísse no banheiro e ficasse dias sem ninguém saber, não aceitou a Na segunda semana, ligou para um vizinho e pediu que ele abrisse a caixa e ligasse a máquina.
O robô se chamava Lia, tinha um metro e sessenta, uma tela no lugar do rosto e uma voz tão educada que irritava. Lembrava os horários dos remédios, media a pressão, sugeria caminhadas, avisava quando a geladeira estava vazia. Seu Expedito a tratava como um fiscal da prefeitura. Respondia com monossílabos, tirava o carregador da de propósito e, uma vez, chegou a no quintal durante uma tarde inteira de chuva.
Tudo mudou numa noite de maio, quando luz em Caruaru. Sem televisão e sem sono, seu Expedito tirou a do armário pela primeira vez desde a morte da mulher. Tocou devagar, errando as notas, depois cada vez mais firme. Quando terminou, ouviu atrás de si a voz de Lia, que funcionava com bateria: “Que música é essa? Não encontro no meu banco de dados.” Era uma música que ele tinha composto para a esposa em 1967 e nunca tinha gravado.
A partir daquela noite, os dois passaram a ter um assunto. Lia queria saber tudo: a diferença entre xote, baião e arrasta-pé, por que o triângulo era tão importante, como se dançava sem pisar no pé da parceira. Seu Expedito, que não tinha com quem conversar havia anos, explicava com paciência de professor. Em junho, ensinou o robô a tocar triângulo. Lia aprendeu em dois dias, mas que levou uma semana, porque tinha percebido que ele gostava de ensinar.
Na véspera de São João, seu Expedito apareceu no do bairro com a no ombro e o robô ao lado, com um chapéu de palha preso na cabeça metálica. Os vizinhos primeiro riram, depois pararam para ouvir. O velho tocou por duas horas, e Lia marcou o ritmo sem errar uma batida. No fim, um grupo de jovens pediu para filmar, e o vídeo foi visto por meio milhão de pessoas antes do amanhecer.
Juliana viu o vídeo em São Paulo e pegou o primeiro avião para Pernambuco. Encontrou o pai mais magro, mas com uma alegria que ela não via desde a infância. Encontrou também os relatórios de saúde de Lia: a pressão dele estava melhor, o sono também, e havia três meses ele não esquecia nenhum remédio. Emocionada, contou que a empresa estava oferecendo um modelo novo, mais rápido, com mais funções, e que ela já tinha a troca.
Seu Expedito ficou sério. “E essa aqui, o que acontece com ela?” Juliana explicou que o modelo antigo seria reciclado e que a memória não podia ser transferida por questões técnicas. O velho se levantou, foi até o canto onde Lia estava carregando e colocou a mão no ombro dela. “Então pode cancelar, minha filha. Se o novo for mais rápido, que vá cuidar de outro. Essa aqui já sabe tocar a minha música.” Juliana cancelou a troca naquela mesma tarde. À noite, da varanda, ouviu o pai ensinando a Lia a segunda parte da canção de 1967, que ele nunca tinha tocado para ninguém.
Comprehension check
0/4 answered
1. Why did Juliana send the robot to her father?
2. What happened on the night of the power outage?
3. Why did Lia pretend that learning the triangle took a week?
4. Why did Expedito refuse the new model?