Short story
A Casa de Vidro
A manicurist from Manaus enters a reality show with a plan to win as the villain, and discovers the cameras see more than she thought.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- a inscrição · application, entry
- a temporada · season (of a show)
- dar assunto · to give people something to talk about
- o confinamento · lockdown, confinement (in the show's house)
- o tacacá · hot Amazonian soup with tucupi and shrimp
- contanto que · as long as
- venenoso · venomous, spiteful
- o paredão · elimination vote (in a reality show)
- amassar · to knead
- ensaiar · to rehearse
- dobrar o quarteirão · to stretch around the block (a line)
- de propósito · on purpose
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Quando Kátia Ramos foi escolhida, entre trezentas mil para participar da nova da Casa de Vidro, o reality show mais assistido do país, ela já tinha um plano. Tinha estudado todas as anteriores com a dedicação de quem estuda para um concurso. Os bonzinhos, concluiu, saíam cedo e eram esquecidos em uma semana. Quem chegava à final era quem dava “Eu vou ser a vilã”, disse à mãe, na véspera do em Manaus. “A vilã que o Brasil ama odiar.”
A mãe, dona Socorro, que tinha uma barraca de perto do Teatro Amazonas havia trinta anos, só respondeu: “Seja quem você quiser, minha filha, que volte inteira.”
Durante as primeiras semanas, o plano funcionou melhor do que Kátia esperava. Ela discutia com todo mundo, fazia comentários na cozinha, provocava os rivais nas festas e votava sempre no participante mais querido. Do lado de fora, segundo os jornalistas que acompanhavam o programa, as redes sociais pegavam fogo. Ela era o mais comentado do país quase todas as noites. Foi indicada ao quatro vezes e, para surpresa geral, sobreviveu às quatro.
O que ninguém dentro da casa sabia era quanto aquilo lhe custava. Kátia passava os dias atuando e as noites sem dormir, olhando para o teto, com a sensação de que tinha virado outra pessoa. A única exceção eram as madrugadas na cozinha. Era lá, quando achava que todos dormiam, que ela fazia pão, cantava baixinho as músicas que a mãe ouvia no rádio e conversava sozinha. Às vezes, quem aparecia era o Murilo, um professor de educação física de Goiânia, justamente o rival que ela mais atacava durante o dia. Ele também não dormia.
Nessas madrugadas, os dois conversavam sobre tudo, menos sobre o jogo. Ele contava do pai doente; ela, da mãe e do Kátia ensinou Murilo a fazer tapioca; ele a ensinou a perder no dominó. De manhã, voltavam aos seus papéis como se nada tivesse acontecido. Kátia tinha certeza de que ninguém dava importância àquelas conversas, porque a edição do programa preferia as brigas. Estava enganada.
Na décima semana, ela foi eliminada com setenta por cento dos votos. Saiu da casa preparada para enfrentar o ódio do público e tinha até um discurso orgulhoso. Mas, na entrevista ao vivo, o apresentador não mostrou nenhuma briga. Mostrou um vídeo de cinco minutos, feito com as câmeras da cozinha: ela pão às três da manhã, Murilo chorando ao falar do pai, ela segurando a mão dele, os dois rindo de uma partida de dominó.
“O público não te tirou porque te odeia”, explicou o apresentador. “Te tirou porque queria que você parasse de fingir.” Kátia não conseguiu dizer nada. Descobriu depois que milhões de pessoas acompanhavam as transmissões da madrugada, sem edição, justamente para ver aquelas conversas, e que a hashtag mais usada da era o nome da barraca da mãe.
Hoje, a fila na barraca de dona Socorro o nos fins de semana, e Kátia, que pensava em ser atriz, ajuda a servir o Murilo ficou em segundo lugar. Na semana seguinte à final, pegou um avião para Manaus, “só pra provar o segundo ele. Até agora, ninguém sabe se ele ainda não aprendeu a ganhar no dominó ou se perde de
Comprehension check
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1. What was Kátia's plan for the reality show?
2. What did Kátia do in the kitchen at night?
3. What did the host show Kátia after she was eliminated?
4. According to the host, why did the public vote her out?