Short story
O furo
A young reporter in Porto Alegre receives documents that could be the scoop of her career, if only one small detail would stop bothering her.
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Words to know (12)
- o furo · scoop (journalism)
- a redação · newsroom
- o remetente · sender
- o cunhado · brother-in-law
- a nota fiscal · invoice, tax receipt
- o rodapé · footer (of a page)
- estampar · to splash (across a page)
- a manchete · headline
- a entrevista coletiva · press conference
- processar · to sue
- a licitação · public bidding process
- pendurar · to hang up
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Eram quase dez da noite quando o e-mail chegou. Camila Becker, repórter de vinte e nove anos de um jornal on-line de Porto Alegre, estava sozinha na terminando uma matéria sobre buracos nas ruas do bairro Partenon. O não tinha nome, só uma sequência de letras e números. O assunto dizia apenas: “Ambulâncias”. Em anexo, havia doze páginas.
Ela leu tudo duas vezes, com o coração disparado. Se os documentos fossem verdadeiros, provavam que a Secretaria de Saúde do estado tinha comprado quarenta ambulâncias por um preço três vezes maior do que o de mercado, de uma empresa que pertencia ao do secretário. Havia fiscais, planilhas, até a cópia de um contrato assinado. Era o tipo de reportagem que um jornalista espera a carreira inteira.
Camila ligou para o editor, o Marcelo, que estava em casa jantando. Ele ouviu em silêncio e depois disse uma frase que ela ia lembrar por muito tempo: “Tem um outro jornal que recebeu a mesma coisa. Fiquei sabendo hoje à tarde. Se a gente não publicar até meia-noite, eles publicam primeiro.” Ela ainda tentou dizer que precisava confirmar com a secretaria, que ninguém tinha sido ouvido. “Ouve amanhã”, ele respondeu. “Amanhã a gente atualiza.”
Ela começou a escrever. O texto saía fácil, como saem os textos que já estão prontos na cabeça. Mas, enquanto revisava os anexos para escolher qual publicar junto, alguma coisa a incomodou. O contrato tinha sido assinado em 14 de março. No porém, aparecia o novo logotipo da secretaria, aquele que o governo tinha apresentado com muita festa, e que Camila sabia que só tinha sido criado em maio. Ela mesma tinha escrito a matéria sobre o lançamento.
Podia ser um erro bobo, um documento impresso de novo mais tarde. Podia não ser nada. Camila olhou o relógio: onze e dez. Ligou outra vez para o Marcelo e explicou. Ele ficou um bom tempo calado, e ela quase pôde ouvi-lo pensar. Quando finalmente falou, foi curto: “Se você não publicar e eles publicarem, a gente perde. Se você publicar e for falso, a gente acaba.” Desligou. A decisão era dela.
Camila não publicou. Às sete da manhã, o outro jornal a na página principal: “Escândalo das ambulâncias”. Às dez, a secretaria convocou uma entrevista e mostrou, ponto por ponto, que o contrato era falso. Às duas da tarde, o jornal concorrente tirou a reportagem do ar e publicou um pedido de desculpas. O secretário ameaçou todo mundo e saiu da como herói.
Teria sido o fim da história, se Camila não tivesse ficado com uma pergunta na cabeça: quem tinha tanto interesse em fazer a imprensa publicar uma mentira justamente naquela semana? Ela passou um mês investigando, desta vez sem pressa. Descobriu que, enquanto todos discutiam as ambulâncias falsas, a mesma secretaria tinha assinado, sem nenhuma um contrato verdadeiro e muito maior, de hospitais de campanha. E esse, sim, com a empresa do
A reportagem saiu num domingo, com documentos confirmados, entrevistas e a resposta oficial da secretaria. Foi lida por meio milhão de pessoas. O secretário caiu na terça-feira. Na sala de reuniões, o Marcelo uma folha impressa com a data em que Camila tinha recusado o primeiro Embaixo, escreveu à mão: “O dia em que a gente não perdeu.”
Comprehension check
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1. What did the anonymous documents seem to prove?
2. What detail made Camila suspicious?
3. What happened to the rival newspaper?
4. What did Camila find after a month of investigation?