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Short story

Crônica do engarrafamento

Stuck for hours in the rain on a São Paulo highway, a columnist watches the drivers around him, and one of them is rehearsing something important.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o engarrafamento · traffic jam
  • desconfiar · to suspect
  • tricotar · to knit
  • o cachecol · scarf
  • a faixa · lane
  • o painel · dashboard
  • o espelho retrovisor · rear-view mirror
  • ué · well, huh (surprise)
  • desabar · to pour down, to collapse
  • ajoelhar-se · to kneel down
  • encharcado · soaked
  • buzinar · to honk

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Dizem que o paulistano passa, em média, quase dois anos da vida parado no trânsito. Eu que, no meu caso, sejam três. Na última sexta-feira, por exemplo, saí do escritório às seis da tarde, entrei na Marginal Tietê às seis e quinze e às oito e meia ainda não tinha passado da Ponte das Bandeiras. Chovia daquele jeito que só chove em São Paulo quando você esqueceu o guarda-chuva e o celular está com três por cento de bateria.

Quando o carro não anda, a gente acaba olhando para os outros. É uma espécie de cinema sem roteiro. À minha esquerda, num carro prata, uma senhora um vermelho com uma calma que eu invejei. Mais à frente, um motoboy deslizava entre as como se o fosse um problema só de quem tem quatro rodas. E à minha direita, num carro popular cheio de adesivos, um rapaz de camisa social falava sozinho.

Primeiro achei que ele estivesse num telefonema. Depois percebi que não havia fone nenhum. Ele falava, parava, balançava a cabeça, recomeçava. Gesticulava com a mão direita, como quem explica algo muito sério a alguém invisível no banco do passageiro. Às vezes, abria uma caixinha que estava no olhava para dentro e fechava de novo, rápido, como se tivesse medo de que a caixinha fugisse.

Não é preciso ser detetive para entender uma caixinha daquelas. O rapaz ia pedir alguém em casamento e estava ensaiando o discurso. E, pela maneira como olhava o relógio, o encontro era naquela noite, num lugar aonde ele não ia chegar nem que o trânsito resolvesse, por milagre, andar. Senti uma pena enorme dele. Se eu pudesse, teria aberto um corredor na Marginal só para aquele carro passar.

Foi então que aconteceu a coisa mais improvável que já vi numa marginal. O carro prata da senhora do tricô avançou uns dois metros, e no lugar dele apareceu um carro branco, com uma moça ao volante. Ela estava se maquiando no espelho apressada, de vestido de festa. Olhou distraída para o lado e deu um grito que eu ouvi mesmo com os vidros fechados. O rapaz do discurso olhou também. Ficou branco como o carro dela.

Os dois baixaram os vidros ao mesmo tempo, debaixo da chuva. “Cadê você?”, ela perguntou, rindo, como se a pergunta fizesse algum sentido. “Aqui, ele respondeu. “Eu ia te esperar no restaurante!” “E eu ia chegar atrasada, como sempre!” Ninguém andava. Ninguém ia andar tão cedo. O rapaz olhou para a caixinha, olhou para o céu, que continuava e saiu do carro.

ali mesmo, na do meio da Marginal Tietê, entre o carro dele e o dela, com a camisa social e a caixinha aberta. Não sei o que ele disse. Duvido que tenha sido o discurso ensaiado. Sei que ela pôs as duas mãos no rosto, depois fez que sim com a cabeça, várias vezes, e que, durante um minuto inteiro, centenas de motoristas juntos, não de raiva, pela primeira vez na história daquela avenida.

Cheguei em casa às dez e quinze, molhado, com fome e sem bateria. Minha mulher perguntou se o trânsito tinha estado muito ruim. Pensei um pouco antes de responder. Embora tenha sido o pior do ano, respondi que não. Que, pelo contrário, tinha sido uma noite linda.

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the narrator notice about the young man in the next car?

2. What did the narrator conclude the young man was going to do?

3. Who was in the white car?

4. Why did hundreds of drivers honk?