Short story
A porta das enchentes
As the river rises in Blumenau, a granddaughter drives from Florianópolis to rescue her German-Brazilian grandmother, who will only leave on one condition.
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Words to know (12)
- a enchente · flood
- o batente · door frame
- riscar · to scratch, draw (a line)
- a régua · ruler, measuring stick
- a bengala · cane
- a trégua · let-up, respite
- a cuca · German-Brazilian crumb cake
- remar · to row
- o sótão · attic
- apodrecer · to rot
- encharcado · soaked
- a lama · mud
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Na cozinha da casa de Oma Hilda, em Blumenau, havia uma porta que nunca tinha sido pintada de novo. No de madeira, a faca e pintadas de vermelho, havia sete linhas horizontais, cada uma com um ano ao lado: 1957, 1961, 1983, 1984, 1992, 2008, 2011. As mais altas, as de 1983 e 1984, ficavam quase na altura do teto. Era a da família, começada pelo bisavô de Bruna, um alemão de Hamburgo que dizia que quem mora perto do rio Itajaí precisa ter boa memória.
Quando a Defesa Civil anunciou, numa terça-feira de outubro, que o rio passaria dos doze metros, Bruna largou o trabalho em Florianópolis e pegou a estrada. Sabia que a avó, com oitenta e oito anos e uma ia se recusar a sair. Chegou ao anoitecer, debaixo de uma chuva que não dava e encontrou Oma Hilda na cozinha, tranquilíssima, fazendo de banana como se fosse um domingo qualquer.
“A senhora tem que vir comigo, Oma. Agora.” A avó nem levantou os olhos da massa. “Em 1983, eu fiquei aqui com o seu avô até a água chegar na janela. Ele passou a noite inteira de canoa pela rua, tirando vizinho do telhado. Salvou vinte e três pessoas. Eu fiquei no com as fotos e a Bíblia, fazendo café pra quem chegava molhado.” Fez uma pausa. “Eu só saio desta casa se a porta for junto.”
Bruna achou que fosse teimosia de velha. Depois olhou para o para as linhas vermelhas e os anos escritos com a letra de três gerações, e entendeu que não era. Se a casa fosse inundada, a madeira podia e aquelas marcas, que contavam a história da família melhor do que qualquer álbum, desapareceriam. Foi buscar a caixa de ferramentas do avô na garagem. Levou quase duas horas, mas conseguiu soltar o inteiro sem quebrar nada.
Às onze da noite, a água já cobria a calçada. Um barco dos bombeiros passou recolhendo moradores, e os dois soldados olharam sem entender quando viram uma senhora de uma moça e uma moldura de porta de dois metros, enrolada num lençol. “Isso aí é importante?”, perguntou um deles. “É a coisa mais importante da casa”, respondeu Oma Hilda, já sentada no barco, segurando a embrulhada no colo.
Passaram quatro dias no ginásio de uma escola, entre colchões, cachorros e famílias inteiras. Oma Hilda, que não parava quieta, organizou a distribuição de café e contou a história de 1983 para quem quisesse ouvir. O ficou encostado na parede do ginásio, e as crianças passaram a medir a própria altura nele, comparando-se com as antigas. “Eu sou mais alta que 1992!”, gritava uma menina, toda orgulhosa.
Quando a água baixou, a casa estava cheia de mas de pé. Levaram uma semana para limpar tudo. No último dia, Bruna recolocou o no lugar, e a avó pediu a tinta vermelha. Com a mão firme, Oma Hilda mediu a marca da água na parede e uma nova linha, um pouco abaixo da de 1983. Ao lado, escreveu o ano. Depois, para surpresa da neta, escreveu mais uma coisa, em letras pequenas: “Bruna”. “Seu avô tem o nome dele na de 1983”, explicou, apontando uma inscrição quase apagada que Bruna nunca tinha notado. “Quem salva a casa ganha o nome na porta.”
Comprehension check
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1. What were the red lines on the kitchen door frame?
2. What did Oma Hilda's husband do during the 1983 flood?
3. On what condition would Oma Hilda leave the house?
4. What did Oma Hilda write next to the new line?