Short story
O poço de seu Cícero
In the third year of drought in the Pernambuco backlands, a grandmother breaks a promise to her late father and opens the well he sealed in 1958.
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Words to know (12)
- o mandacaru · mandacaru cactus
- o poço · well
- a laje · concrete slab
- tampar · to cover, seal
- o açude · reservoir
- o carro-pipa · water truck
- a cisterna · water tank, cistern
- cuspir · to spit
- a careta · grimace
- a lona · tarpaulin, plastic sheeting
- a calha · gutter, channel
- arregalar os olhos · to open one's eyes wide
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Na terceira seca seguida, quando até os começaram a amarelar, Dona Socorro Bezerra fez uma coisa que tinha prometido ao pai nunca fazer: mandou abrir o velho. Ficava no fundo do quintal, coberto por uma de cimento rachada e por trinta anos de mato. O pai, seu Cícero, tinha cavado aquele com as próprias mãos na grande seca de 1958 e, depois de provar a água, mandou “Água ruim”, dizia ele. “Melhor não ter que precisar.”
Agora precisavam. O da comunidade, no sertão do Pajeú, em Pernambuco, era uma rachadura de lama seca. O do governo passava a cada quinze dias, quando passava, e a de Dona Socorro estava no fim. Os vizinhos ajudaram a quebrar a numa manhã de calor insuportável. Lá embaixo, a uns doze metros, a água brilhava, escura e parada. Seu Zé de Lia desceu um balde amarrado numa corda, todo mundo esperou em silêncio, e ele provou o primeiro gole.
na mesma hora. “Salgada que nem água do mar”, disse, fazendo A decepção foi geral. Alguns vizinhos foram embora sem falar nada. Dona Socorro sentou na beira do e chorou pela primeira vez desde que a seca começara. Naquela noite, ligou para a neta, Lívia, que estudava química na universidade em Petrolina, só para ouvir uma voz que não falasse de chuva.
Lívia ouviu a história inteira e ficou calada por um tempo. “Vó, a senhora ainda tem aquelas telhas de vidro que sobraram da reforma da cozinha?” Dona Socorro não entendeu a pergunta, mas disse que sim. “E preta? E umas caixas de madeira?” Também tinha. “Então não esse de novo, não. Eu chego aí no sábado.”
Lívia chegou com uma mochila cheia de canos, mangueiras e um caderno de desenhos. Explicou à avó e aos vizinhos, que olhavam desconfiados, que o sol do sertão, que estava matando tudo, também podia salvar. Montou, no meio do quintal, uma caixa rasa forrada de preta, coberta por um vidro inclinado. A água salgada ia dentro da caixa. O sol esquentava a água, que evaporava e deixava o sal para trás. O vapor batia no vidro, virava gota e escorria para uma “É a chuva”, disse ela, “só que em miniatura.”
No primeiro dia, a caixa produziu pouco mais de quatro litros. Seu Zé de Lia provou, desconfiado, e os olhos: era água doce, sem gosto de nada, a coisa mais preciosa que ele tinha bebido em meses. Em duas semanas, com a ajuda dos vizinhos, havia vinte caixas espalhadas pelos quintais, todas alimentadas com a água do de seu Cícero. Não era muito, mas dava para beber e cozinhar, e ninguém precisava mais esperar pelo para encher a panela de feijão.
Quando a chuva finalmente voltou, em fevereiro, as caixas continuaram nos quintais, e a professora da escola levou as crianças para aprender como funcionavam. Dona Socorro, arrumando a casa depois das primeiras chuvas, encontrou entre os papéis do pai uma caderneta de 1958. Numa das páginas, com a letra trêmula de quem escrevia pouco, ele tinha anotado: pronto. Água ruim, mas água. Quem sabe um dia alguém da família descobre o que fazer com ela.” Dona Socorro guardou a caderneta numa caixa de vidro, ao lado da primeira garrafa que Lívia tinha enchido, e nunca mais deixou ninguém chamar aquele de velho.
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1. Why had seu Cícero sealed the well?
2. Why did Dona Socorro call Lívia that night?
3. How did Lívia's box make drinking water?
4. What had seu Cícero written in his notebook in 1958?