Short story
O relógio do coronel
A gold pocket watch follows three generations of a cacao family in southern Bahia, from the boom years through ruin and back.
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Words to know (12)
- maciço · solid
- a saca · sack
- o sino · bell
- o lucro · profit
- a roça · plantation, farmland
- a vassoura-de-bruxa · witches' broom (a cacao disease)
- o cacaueiro · cacao tree
- a grota · damp hollow, ravine
- arrendar · to lease, rent (land)
- o lote · batch
- o veludo · velvet
- dar corda · to wind (a watch)
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Em 1952, quando o cacau valia quase tanto quanto o ouro e Ilhéus tinha mais cabarés que escolas, Osório Brandão, um dos coronéis do cacau, comprou um relógio de bolso suíço numa joalheria de Salvador. Era de ouro com as iniciais dele gravadas na tampa, e custou o equivalente a cem de cacau. Osório não precisava de relógio, porque quem mandava nas horas da fazenda era o Mas queria que, quando tirasse aquele objeto do bolso, todo mundo na cidade soubesse quem ele era.
O relógio passou para o filho, Edmundo, em 1975, no dia do enterro de Osório. Edmundo era um homem diferente do pai: falava baixo, lia poesia e tratava os trabalhadores pelo nome. Durante catorze anos, a fazenda continuou dando e ele chegou a pensar que a família tinha nascido para durar. Então, em 1989, apareceu nas um fungo que os agricultores chamaram de Em três safras, os secaram um atrás do outro, como se alguém tivesse apagado a região.
Em 1991, Edmundo já tinha vendido o gado, o carro e metade das terras, e ainda devia ao banco. Numa noite de chuva, foi até a casa do seu melhor amigo, Raimundo Ribeiro, dono de uma pequena farmácia no centro, e colocou o relógio sobre a mesa. Precisava de dinheiro para pagar os trabalhadores que ainda restavam. Raimundo pagou mais do que o relógio valia naquele momento e disse uma frase que Edmundo nunca esqueceu: “Eu não estou comprando. Estou guardando até as coisas melhorarem.”
As coisas não melhoraram enquanto Edmundo viveu. Ele morreu em 2010 numa casa pequena em Itabuna, sem fazenda e sem relógio, mas com uma neta de doze anos que passava as férias ouvindo as histórias dele. Tamires gostava especialmente de uma: a dos poucos pés de cacau que tinham resistido à praga, numa úmida no fundo da antiga fazenda, onde o fungo nunca chegou. “Se um dia alguém da família quiser recomeçar”, dizia o avô, “é por ali.”
Tamires estudou agronomia em Ilhéus, trabalhou numa fábrica de chocolate em São Paulo e, aos vinte e três anos, voltou para a Bahia com uma ideia que todos acharam maluca. a da antiga fazenda, que agora pertencia a outra família, e começou a produzir chocolate fino com as sementes daquelas árvores sobreviventes. Os primeiros foram um desastre. O quinto ganhou uma medalha num concurso internacional em Paris.
Em março de 2024, ela inaugurou uma pequena loja em Ilhéus, no mesmo prédio onde o bisavô tinha um escritório nos tempos de glória. No meio da festa, entrou um senhor muito magro, de noventa e dois anos, apoiado no braço de uma neta. Tamires não o reconheceu. Ele se aproximou devagar, tirou do bolso do paletó uma caixinha de gasta e a colocou sobre o balcão, entre as barras de chocolate.
Dentro da caixa estava o relógio de ouro, com as iniciais de Osório na tampa, funcionando perfeitamente. “Eu dei nele toda semana durante trinta e três anos”, disse seu Raimundo, com a voz fraca. “Prometi ao seu avô que guardava até as coisas melhorarem.” Olhou em volta, para a loja cheia, para as medalhas na parede, para a neta do amigo com os olhos molhados. “Pelo jeito, melhoraram.” Tamires quis pagar, e ele riu como se ela tivesse contado uma piada. Hoje o relógio fica numa vitrine ao lado do caixa, e Tamires só o tira de lá uma vez por ano, no dia da primeira colheita, para conferir as horas.
Comprehension check
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1. Why did Osório buy the gold watch?
2. What ruined the family's cacao farm?
3. What did Raimundo say when he took the watch?
4. Where did Tamires get the beans for her chocolate?