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Short story

A última banca da praça

A short piece of reportage about a newsstand in Belém that has survived the end of printed newspapers, until the city decides it has to go.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (11)
  • a banca · newsstand, kiosk
  • as palavras cruzadas · crossword puzzles
  • a prateleira · shelf
  • o ponto · business location, spot
  • a teimosia · stubbornness
  • a encomenda · parcel, package
  • a notificação · official notice
  • a retirada · removal
  • o abaixo-assinado · petition
  • a bengala · cane
  • o fechamento · close, deadline (of a news piece)

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Às cinco e meia da manhã, quando a Praça da República, em Belém, ainda está escura e úmida, Raimundo Pantoja já levantou as portas de ferro da Ele faz isso há quarenta e um anos. Quando começou, aos dezenove, vendia trezentos jornais por dia e tinha dois ajudantes. Hoje, vende onze. “Doze, quando morre alguém importante”, diz, sem sorrir, enquanto arruma as revistas de palavras na de baixo.

A do seu Raimundo é a última das sete que existiam em volta da praça nos anos noventa. As outras foram fechando uma a uma, à medida que os leitores trocavam o papel pela tela do celular. Muitos donos venderam o alguns transformaram as em lanchonetes; uma virou loja de capinhas de celular. Ele resistiu. Não por garante, mas porque descobriu, sem querer, que a servia para outras coisas.

Quem passa uma manhã ali entende do que ele está falando. Às seis, chega a dona Iracema, que mora sozinha num prédio da avenida Presidente Vargas e deixa com ele uma cópia da chave, “caso aconteça alguma coisa”. Às sete, um grupo de taxistas toma café de garrafa térmica e discute futebol. Às oito, uma estudante de enfermagem deixa uma para um colega buscar à tarde. Há também os livros: duas estantes de livros usados, que o seu Raimundo empresta sem anotar o nome de ninguém. “Quem pega, devolve”, explica. “Quase sempre.”

Em agosto, porém, chegou uma da prefeitura. A praça vai passar por uma reforma, e o projeto prevê a das estruturas consideradas “sem uso comercial relevante”. A foi incluída na lista. Segundo a Secretaria de Urbanismo, procurada pela reportagem, a decisão é técnica: “O espaço será devolvido ao pedestre. que não cumprirem sua função original não serão mantidas.”

A notícia se espalhou pela praça mais rápido do que qualquer jornal que o seu Raimundo já tenha vendido. Em duas semanas, um reuniu quatro mil assinaturas. Os taxistas fizeram faixas. A estudante de enfermagem criou um perfil nas redes sociais chamado “A fica”, que já tem mais seguidores do que o jornal mais antigo da cidade. A dona Iracema, de oitenta e quatro anos, foi pessoalmente à prefeitura, de e pediu para falar com o prefeito. Não foi recebida.

O seu Raimundo acompanha tudo com uma tranquilidade que impressiona. Diz que, se tiver que sair, sai. Que já está na idade de se aposentar e que a filha mora em Castanhal e vive pedindo que ele vá morar com ela. Mas, quando perguntamos o que faria com as chaves que guarda, com as com os livros, ele fica calado por um bom tempo. “Isso aqui nunca foi uma de jornal”, diz, por fim. “Era uma desculpa pra gente se ver todo dia.”

Até o desta reportagem, a prefeitura não havia respondido ao A reforma está prevista para começar em março. Na última sexta-feira, o seu Raimundo vendeu nove jornais. Emprestou quatro livros, guardou duas e anotou, num caderno, o telefone do filho de um senhor que tinha começado a esquecer o caminho de casa. Nada disso aparece em nenhum relatório de uso comercial relevante.

Comprehension check

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1. How many newspapers does Raimundo sell today on a normal day?

2. Why does dona Iracema leave a copy of her key with him?

3. Why does the city want to remove the newsstand?

4. What does Raimundo say the newsstand really was?