Short story
Corrida para o aeroporto
A ride-hailing driver in Salvador picks up a passenger he knows very well: the man who fired him.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (11)
- a corrida · ride, fare
- a autopeça · car part
- o papelão · cardboard
- arranjar · to find, to get (a job)
- a pasta · briefcase
- a demissão · dismissal, firing
- demitir · to fire, to dismiss
- o seguro-desemprego · unemployment insurance
- a matriz · head office, parent company
- o estoque · stock, warehouse inventory
- a maçaneta · door handle
Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.
Fazia um ano e quatro meses que o Anderson dirigia por aplicativo em Salvador. Antes disso, tinha sido engenheiro de produção numa fábrica de em Camaçari durante nove anos, até o dia em que foi chamado numa sala com ar-condicionado forte demais e ouviu que a empresa estava “reestruturando a operação”. Saiu com uma caixa de um porta-retratos e a certeza de que outro emprego em três meses. Não
Naquela quinta-feira, às cinco da manhã, o aplicativo apitou com uma do Horto Florestal para o aeroporto. Anderson aceitou sem olhar o nome do passageiro. Só olhou quando o homem entrou no banco de trás, de terno, com uma mala pequena e uma de couro. Era o Fernando Albuquerque, ex-diretor da fábrica. O homem que tinha assinado a dele.
Durante os primeiros dez minutos, nenhum dos dois disse nada. Fernando estava ocupado com o celular, e Anderson se perguntava se ele o tinha reconhecido. Talvez não. Diretores não costumam guardar o rosto de quem Na avenida Paralela, porém, o passageiro levantou os olhos e encontrou os dele no retrovisor. “Anderson?”, disse, devagar. “Anderson, da linha três?” “Eu mesmo, doutor Fernando. Bom dia.”
O silêncio que veio depois foi pior do que o primeiro. Anderson pensou em várias coisas que poderia dizer. Pensou nos meses em que tinha pagado as contas com o na filha que tinha mudado de escola, na vergonha de contar ao pai. Poderia dizer tudo aquilo, ali, com o homem preso no banco de trás por mais vinte minutos. Em vez disso, perguntou se ele preferia o ar mais forte ou mais fraco.
Foi Fernando quem começou a falar. Contou, olhando pela janela, que também tinha saído da fábrica, seis meses depois de Anderson. A tinha fechado a unidade de Camaçari e levado a produção para o México. Ele estava desempregado havia quase um ano e ia para São Paulo fazer uma entrevista numa empresa de logística. “É a quarta entrevista do ano”, disse, com um sorriso sem graça. “Nas outras três, me acharam caro demais. Ou velho demais. Nunca sei.”
Anderson não sabia se sentia pena ou satisfação. Sentiu, para sua própria surpresa, um pouco das duas e depois nenhuma. Ele conhecia aquele sorriso sem graça; tinha usado o mesmo durante meses. Então fez uma coisa que nem ele esperava. Contou que a tal empresa de logística tinha um problema sério de organização no porque um amigo dele trabalhava lá, e explicou, em detalhes, o que ele mesmo faria se estivesse no lugar de diretor. Falou durante todo o resto da viagem.
Quando chegaram ao aeroporto, Fernando ficou um momento parado, com a mão na “Por que você me contou tudo isso?” Anderson deu de ombros. “Se o senhor conseguir o emprego, vai precisar de um engenheiro que conheça esse O homem riu pela primeira vez, pegou a mala e saiu. Avaliou a com cinco estrelas e deixou um comentário de uma palavra: “Obrigado.”
Três semanas depois, Anderson recebeu uma ligação de um número de São Paulo. Era Fernando. Tinha sido contratado, e a primeira coisa que fez foi pedir uma vaga para um engenheiro de produção, de preferência alguém que conhecesse bem o problema do Perguntou se ele aceitaria se mudar. Anderson olhou para o volante, para o painel, para a rua cheia de buzinas da Paralela, e pediu um dia para pensar. Não precisou de tanto.
Comprehension check
0/4 answered
1. Who was the passenger Anderson picked up?
2. What had happened to Fernando?
3. What did Anderson do during the rest of the ride?
4. Why did Fernando call three weeks later?