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Short story

Seu Severino sabe tudo

A crônica about the doorman of a Copacabana building who knows everything about the residents, while they know almost nothing about him.

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Words to know (11)
  • o porteiro · doorman
  • enjoado · nauseous
  • a condução · means of transport, bus ride
  • o balcão · counter, desk
  • o queijo coalho · firm grilling cheese from the Northeast
  • o cordel · Northeastern folk poetry in printed pamphlets
  • o couro · leather
  • irreconhecível · unrecognizable
  • o folheto · pamphlet, chapbook
  • o barbante · string
  • caprichado · carefully done, neat

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Todo prédio de Copacabana tem um que sabe tudo. O nosso se chama Severino, é de Campina Grande, na Paraíba, e trabalha na portaria há vinte e três anos. Sabe quem chega tarde, quem não paga o condomínio, quem brigou com o namorado e quem voltou com ele. Sabe que a dona Glória do 801 esconde o cigarro do médico e que o rapaz do 203 tem medo de elevador. Sabe, inclusive, coisas que nós mesmos ainda não sabemos.

Foi ele, por exemplo, quem me avisou que eu estava grávida. Eu tinha descido para buscar uma encomenda, numa terça de manhã, e ele me olhou de um jeito estranho. “A senhora tá bem, dona Paula?” Respondi que sim, só um pouco Ele sorriu e disse: “Minha mãe teve onze filhos. Eu conheço essa cara.” Duas semanas depois, o exame confirmou. O primeiro a saber, depois do meu marido, foi o seu Severino. Aliás, talvez antes.

Durante anos, achei normal que ele soubesse tanto sobre mim e eu tão pouco sobre ele. Sabia que ele morava em São Gonçalo e que pegava duas para chegar. Sabia que torcia pelo Vasco e que preferia café sem açúcar. E só. Nunca tinha perguntado se ele tinha filhos, o que fazia nos fins de semana, o que pensava enquanto olhava a rua durante doze horas, atrás daquele de mármore. É estranho o que a gente deixa de ver quando vê alguém todo dia.

Descobri por acaso, num domingo de feira em São Cristóvão, onde fui com minha filha comprar queijo Num canto da feira nordestina, havia uma pequena multidão em volta de um senhor que recitava versos de com uma voz que eu conhecia muito bem. Era o seu Severino, de chapéu de sem o uniforme. Recitava a história de um que via o mundo inteiro passar pela porta de um prédio sem que ninguém o visse passar.

Fiquei parada, com o queijo na mão, até ele terminar. Os versos eram engraçados e tristes ao mesmo tempo. Havia uma senhora que escondia cigarro do médico. Havia um rapaz com medo de elevador. Havia até uma moça que não sabia que estava grávida. Ninguém tinha nome, mas eu reconheci todos os moradores do prédio, inclusive a mim mesma. No fim, as pessoas aplaudiram e compraram os que ele vendia pendurados num

Ele me viu na plateia e ficou vermelho. Eu também. Comprei três e pedi que ele autografasse um para a minha filha. Ele escreveu, com letra “Para a menina que eu vi antes de todo mundo.” Contou que escrevia desde os doze anos, que já tinha publicado mais de quarenta e que, na feira, era conhecido como “o Poeta da Portaria”. Perguntei por que nunca tinha dito nada. Ele deu de ombros. “A senhora nunca perguntou.”

Na segunda-feira, cheguei do trabalho e ele estava no lugar de sempre, de uniforme, como se o domingo não tivesse existido. Disse “boa noite, dona Paula”, abriu o portão e voltou a olhar a rua. Mas alguma coisa tinha mudado. Agora, quando passo pela portaria, paro e pergunto como foi o fim de semana. Às vezes, ele responde com um verso. E, quando faço alguma coisa errada, como esquecer a chave pela terceira vez no mês, desconfio que estou ajudando a escrever o próximo

Comprehension check

0/4 answered

1. How did seu Severino guess that Paula was pregnant?

2. What did Paula realize about her relationship with Severino?

3. What was Severino doing at the market in São Cristóvão?

4. Why had he never told her about his poetry?