Short story
A última fita
A late-night radio host in Recife starts receiving anonymous cassette tapes about a frevo singer who vanished thirty years ago.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- a madrugada · small hours, early morning
- o vigia · watchman
- pardo · brown (of paper)
- o remetente · sender
- rouco · hoarse, husky
- a Quarta-Feira de Cinzas · Ash Wednesday
- sumir do mapa · to vanish without a trace
- a armadilha · trap
- a ladeira · steep street, slope
- o coque · bun (hairstyle)
- desconfiar · to suspect
- recompor-se · to pull oneself together
Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.
Durante doze anos, Marcos Vilela apresentou o programa da de uma rádio AM do Recife sem que nada de extraordinário acontecesse. Tocava frevo antigo, lia recados de taxistas e de noturnos, atendia ouvintes com insônia. Até que, numa segunda-feira de junho, encontrou na recepção um envelope sem Dentro havia uma fita cassete e um bilhete escrito à mão: “Toque no programa. Ela merece ser lembrada.”
Marcos teve de pedir emprestado um gravador velho ao técnico de som. Na fita, uma voz feminina, e tranquila, contava a história de Ritinha Barbosa, uma cantora de frevo que fizera sucesso nos anos oitenta e que desaparecera na Quarta-Feira de de 1994, em Olinda. Naquela manhã, segundo a voz, Ritinha tinha saído de casa com uma sacola e nunca mais fora vista. A polícia, na época, encerrou o caso sem conclusão.
Ele hesitou, mas acabou tocando a fita no ar. O telefone da rádio não parou mais. Gente que tinha dançado ao som de Ritinha, gente que nunca tinha ouvido falar dela, gente com teorias absurdas. Na semana seguinte, chegou uma segunda fita, depois uma terceira. Cada uma trazia um detalhe novo: o empresário ciumento com quem Ritinha era casada, as dívidas, os shows cancelados, a noite em que ela teria dito a uma amiga que, se pudesse, do mapa.
O programa, que antes quase ninguém ouvia, virou assunto nos jornais. A direção da rádio queria que Marcos descobrisse quem mandava as fitas, nem que fosse para conseguir uma entrevista exclusiva. Ele interrogou a recepcionista, examinou os envelopes, chegou a pensar em contratar um detetive. Nada. As fitas simplesmente apareciam, sempre às segundas, sempre sem
A sexta fita foi a mais curta. A voz dizia apenas: “Se você quiser saber o fim da história, venha sozinho. Rua do Amparo, número 41. Domingo, às cinco da tarde.” Marcos passou a semana dizendo a si mesmo que não iria, que podia ser uma que aquilo já não era jornalismo. No domingo, às quatro e meia, estava subindo as de Olinda com o coração disparado.
Quem abriu a porta foi uma senhora pequena, de cabelos brancos presos num com um gato no colo. Marcos reconheceu a voz antes mesmo de reconhecer o rosto. “Você é a Ritinha”, disse, quase sem fôlego. Ela sorriu. “Fui, durante muito tempo. Depois virei Dona Rita, costureira, e ninguém nunca Contou que tinha fugido do marido, que a controlava em tudo, e que passara anos morando no interior da Paraíba. Só voltara a Olinda depois que ele morrera.
“Por que agora?”, perguntou Marcos. Dona Rita olhou pela janela, para o mar lá embaixo. “Porque eu estou com setenta e cinco anos, e o médico disse que o meu coração não é mais o mesmo. Eu queria que as pessoas soubessem que eu não desapareci. Eu me salvei.” Na seguinte, pela primeira vez em trinta anos, Ritinha Barbosa cantou ao vivo. Foi o programa mais ouvido da história da rádio, e Marcos, que nunca chorava no ar, teve de colocar uma música para se
Comprehension check
0/4 answered
1. What was in the first envelope?
2. What happened to the program after the tapes were played?
3. Why had Ritinha disappeared in 1994?
4. Why did she decide to tell her story now?