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Short story

O ônibus das cinco e dez

A short piece of reportage follows a cleaning worker on her long daily commute from Ceilândia to the center of Brasília, and what she does with those hours.

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Words to know (11)
  • populoso · populous
  • a quadra · block (of streets)
  • a faxineira · cleaning lady, housecleaner
  • o expediente · working day, office hours
  • a amargura · bitterness
  • a remoção · removal, eviction
  • a desigualdade · inequality
  • a bolsa · scholarship
  • a obra · construction site
  • a Ordem dos Advogados · the Brazilian Bar Association
  • a moradia · housing

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Às quatro e vinte da manhã, ainda está escuro na Ceilândia, a cidade mais do Distrito Federal, a trinta quilômetros do Congresso Nacional. É nessa hora que Edilene Rodrigues, de quarenta e três anos, sai de casa, atravessa duas de terra e chega ao ponto onde, se tudo der certo, vai pegar o ônibus das cinco e dez. Ela trabalha como num prédio de ministério, na Esplanada. O começa às sete. Para chegar a tempo, precisa sair quase três horas antes.

A reportagem acompanhou Edilene durante uma semana. A viagem, que de carro levaria quarenta minutos, de ônibus leva entre uma hora e meia e duas horas, dependendo do trânsito na Estrutural. Na volta, é pior. Somando ida e volta, são quase quatro horas por dia dentro de um ônibus, vinte por semana, cerca de mil por ano. “Se eu morasse no Plano Piloto, ia ter um outro emprego só com esse tempo”, ela calcula, sem enquanto procura um lugar para sentar.

A história de Edilene é a de centenas de milhares de brasilienses. Brasília foi planejada para ser uma cidade moderna, mas os trabalhadores que a construíram, nos anos cinquenta e sessenta, foram afastados para longe do centro, nas chamadas cidades-satélites. A própria Ceilândia nasceu de uma campanha de de favelas, em 1971. Segundo urbanistas ouvidos pela reportagem, a distância entre onde as pessoas moram e onde trabalham continua sendo uma das maiores da capital.

O que surpreende quem viaja com Edilene, porém, não é o cansaço. É o que ela faz com essas horas. Assim que consegue um lugar, ela abre a mochila e tira um livro grosso, cheio de anotações coloridas: um manual de direito constitucional. Edilene cursa o último ano de direito numa faculdade particular de Taguatinga, à noite, com uma do governo. Estuda no ônibus, de manhã e de noite, há cinco anos. “O ônibus é a minha biblioteca”, diz. “É o único lugar onde ninguém me pede nada.”

Os colegas de viagem já a conhecem. O motorista, seu Josué, guarda para ela o banco da frente, onde a luz é melhor. Uma vendedora de salgados que pega o mesmo ônibus faz perguntas para ela responder, como se fosse uma prova oral. Um rapaz que trabalha numa no Setor Comercial Sul empresta o fone de ouvido quando o ônibus está barulhento demais. Ninguém combinou nada. As coisas foram acontecendo, como acontecem em quem divide quatro horas por dia de estrada.

Na sexta-feira em que a reportagem terminou de acompanhá-la, Edilene recebeu uma notícia pelo celular, às seis e quinze da manhã, ainda no ônibus, na altura da Cidade Estrutural. Tinha sido aprovada no exame da dos na primeira tentativa. Ela leu a mensagem em silêncio, guardou o celular e ficou um tempo olhando pela janela. Depois se levantou, foi até a frente e disse alguma coisa ao seu Josué. O motorista buzinou três vezes, sem motivo aparente, e o ônibus inteiro começou a aplaudir.

Edilene não pretende largar a faxina tão cedo. Diz que precisa pagar as contas até conseguir os primeiros clientes. Mas já sabe em que tipo de causa quer trabalhar: direito à e ao transporte. “Quem decide essas coisas mora perto”, explica. “Quero ser a advogada de quem mora longe.” Na segunda-feira seguinte, às cinco e dez, ela estava de novo no ponto. Com um livro novo na mochila.

Comprehension check

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1. How much time does Edilene spend on the bus each day?

2. According to the article, how did Ceilândia begin?

3. What does Edilene do on the bus?

4. What news did she get on the Friday?