Deep End
← Upper-intermediate stories

Short story

Elogio do escritório

After three years of working from home in Goiânia, a columnist makes an unfashionable case for going back to the office.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (11)
  • o elogio · praise, in praise of
  • o crachá · ID badge
  • a catraca · turnstile
  • antiquado · old-fashioned
  • a bermuda · shorts
  • a copa · office kitchen, break room
  • a fofoca · gossip
  • a conquista · achievement, hard-won gain
  • presencial · in person
  • regar · to water (plants)
  • grisalho · gray-haired

Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.

Vou dizer uma coisa que hoje em dia quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta: eu sinto falta do escritório. Não do trânsito da avenida T-63 às oito da manhã, nem do que nunca abria a na primeira tentativa. Sinto falta do resto. E, como sei que vou receber mensagens indignadas, peço que o leitor me acompanhe até o fim antes de me chamar de

Quando a empresa mandou todo mundo para casa, há três anos, achei que tinha ganhado na loteria. Ia acordar mais tarde, trabalhar de almoçar com a minha mulher e nunca mais ouvir o Valdir, do financeiro, contando as mesmas piadas na Nos primeiros meses, foi exatamente isso. Eu era mais produtivo, mais descansado, mais feliz. Escrevi até uma crônica sobre o assunto, que, se o leitor tiver paciência de procurar, ainda está no site do jornal.

Aos poucos, porém, alguma coisa foi mudando, sem que eu percebesse. A mesa da sala virou escritório; o sofá, sala de reunião; a cama, às vezes, também. Passei a trabalhar mais horas, não menos, porque o trabalho já não tinha hora para acabar: o computador estava sempre ali, a dois metros, piscando. Minha mulher, que também trabalhava em casa, começou a me tratar como um colega chato que divide a mesa com ela. Com razão.

Mas o que mais me fez falta, confesso, foram as coisas inúteis. A conversa no elevador sobre o calor de Goiânia, que é sempre o maior dos últimos cinquenta anos. O bolo de aniversário de alguém de quem eu não sabia o sobrenome. A na fila do café. O colega mais velho que, sem querer, me ensinava em dez minutos de corredor o que nenhum vídeo de treinamento ensina. Nada disso cabe numa videochamada, onde todo mundo fala na sua vez e desliga assim que o assunto acaba.

Os especialistas dizem que o futuro é híbrido, e talvez tenham razão. Não defendo que todo mundo volte para o escritório cinco dias por semana, nem que as empresas obriguem quem mora a duas horas de distância a enfrentar o trânsito todo dia. Para muita gente, o trabalho remoto foi uma e ainda bem que foi. Defendo apenas que a gente não confunda conforto com felicidade. São coisas parecidas, mas não iguais.

Na semana passada, voltei ao escritório pela primeira vez em três anos, para uma reunião O naturalmente, não funcionou. Minha antiga mesa tinha sido ocupada por uma samambaia enorme, que alguém com mais carinho do que eu jamais tinha qualquer coisa. Na encontrei o Valdir, do financeiro, mais e mais magro. Ele me viu, abriu um sorriso e começou a contar a mesma piada de sempre, a do papagaio.

Ri como se fosse a primeira vez. E, embora a piada continue sem graça nenhuma, juro ao leitor que foi a melhor coisa que eu ouvi naquele ano. Fica registrado, portanto, o meu do escritório, com samambaia, quebrado e papagaio.

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the narrator think at first when the company sent everyone home?

2. Why did he start working more hours at home?

3. What does the narrator actually defend?

4. What did he find at his old desk?