Short story
Roteiro de atendimento
On her first job at a call center in Natal, a young woman learns to follow the script, until a caller needs something the script doesn't cover.
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Words to know (11)
- a carteira assinada · formal employment contract
- a central de atendimento · call center
- a mensalidade · monthly fee
- giratório · swivel
- o CPF · Brazilian taxpayer ID number
- o pesadelo · nightmare
- saber de cor · to know by heart
- a retenção · customer retention
- falecer · to pass away
- o falecimento · death, passing
- o titular · account holder
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O primeiro emprego de da Larissa foi numa de atendimento de uma operadora de telefonia, num prédio espelhado perto da BR-101, em Natal. Ela tinha dezenove anos, estava no segundo período de psicologia e precisava pagar a No primeiro dia, recebeu um fone de ouvido, um crachá, uma cadeira e um documento de trinta e duas páginas chamado “Roteiro de atendimento”, que deveria seguir palavra por palavra.
O roteiro previa tudo. Como cumprimentar o cliente, como pedir o como dizer não sem dizer não. Previa, sobretudo, o que fazer quando alguém quisesse cancelar uma linha, que era o da empresa. Nesses casos, era proibido cancelar na primeira ligação. A atendente devia oferecer três descontos, um depois do outro, e só depois, se o cliente insistisse muito, transferir a ligação para outro setor, onde a espera durava em média quarenta minutos. A supervisora, a Patrícia, ouvia as gravações e dava notas.
Larissa aprendeu rápido. Em um mês, já sabia o roteiro de e tinha a melhor taxa de da equipe. Era boa em convencer as pessoas a ficar. Às vezes, à noite, sentia uma coisa estranha no estômago, como se tivesse feito algo errado, mas logo passava. Afinal, ninguém morre por pagar um plano de celular por mais alguns meses.
Numa quarta-feira de chuva, às três da tarde, entrou uma ligação de uma senhora chamada Dona Neide. Ela falava devagar, com aquela educação de quem foi criada no interior. Queria cancelar a linha do marido. Larissa começou, automaticamente, pela primeira oferta: um desconto de trinta por cento por seis meses. Dona Neide esperou que ela terminasse e respondeu com calma: “Minha filha, ele não vai usar. Ele faz quinze dias.”
Larissa olhou para o roteiro aberto na tela. Ele tinha resposta para tudo, mas não para aquilo. A página dizia que, mesmo em caso de a atendente devia oferecer a transferência da linha para outro membro da família. Ela tentou. A senhora explicou que não tinha filhos por perto, que o número do marido era o mesmo havia vinte anos e que ela só ligava porque todo mês chegava uma conta com o nome dele, e cada conta era como receber a notícia de novo.
Foi aí que Larissa fez o que o roteiro proibia. Desligou o microfone por dois segundos, respirou fundo, ligou de novo e disse: “Dona Neide, a senhora não precisa esperar mais nada. Eu vou cancelar agora.” Cancelou. Depois, ainda ficou no telefone mais doze minutos, ouvindo a senhora contar como tinha conhecido o marido numa festa de São João em Caicó, em 1968. O sistema marcou a ligação em vermelho: tempo excessivo, zero.
No dia seguinte, a Patrícia a chamou na sala dela. Larissa entrou certa de que ia ser demitida, ou pelo menos levar uma advertência. A supervisora estava com a gravação aberta no computador. Ficou um tempo calada e depois disse que ia ter que registrar a falha, porque as regras eram as regras. Mas, quando Larissa já estava saindo, acrescentou, sem olhar para ela: “Minha mãe ligou pra cá no ano passado, pra cancelar a linha do meu pai. Esperou quarenta minutos.”
Dois meses depois, o roteiro ganhou uma página nova, a trigésima terceira. Dizia que, em caso de do o cancelamento devia ser feito imediatamente, sem ofertas nem transferências, e que a atendente podia usar o tempo que fosse necessário. Ninguém disse quem tinha escrito aquilo. Larissa desconfia que foi a Patrícia. A Patrícia diz que não sabe do que ela está falando.
Comprehension check
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1. What was the company's rule about cancellations?
2. Why did dona Neide want to cancel the line?
3. What did Larissa do that went against the script?
4. What changed in the script two months later?