Short story
O muro cinza
When the city of São Paulo orders a famous mural to be painted gray, the worker sent to do it has a very personal reason to hesitate.
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Words to know (11)
- o muro · (outdoor) wall
- o viaduto · overpass
- a pipa · kite
- a gestão · administration
- a pichação · tagging, scrawled graffiti
- escalar · to assign (to a task)
- o andaime · scaffolding
- descontar · to dock (pay)
- o rolo · paint roller
- escorrer · to drip, to run
- o fundo · background
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O mural ocupava os quarenta metros do de um na zona norte de São Paulo, perto da Brasilândia. Mostrava o rosto de uma senhora negra, de lenço na cabeça, olhando para o alto, e em volta dela crianças, casas penduradas no morro e um céu de um azul impossível. Tinha sido pintado em três semanas, de madrugada, por um grupo de grafiteiros do bairro. A autora principal assinava apenas “Dandara”.
Em pouco tempo, o virou ponto turístico. Ônibus escolares paravam ali, casais tiravam fotos de casamento, uma revista estrangeira publicou uma reportagem de quatro páginas. Mas, em setembro, uma nova da prefeitura lançou um programa chamado “Cidade Limpa de Novo”, que pretendia apagar e grafites não autorizados. O mural da Brasilândia foi incluído na lista. Segundo a nota oficial, seria pintado de cinza “na próxima segunda-feira, conforme o cronograma”.
O funcionário para o serviço se chamava Gilberto. Tinha cinquenta e oito anos, trabalhava havia vinte na manutenção da prefeitura e já tinha coberto de cinza centenas de muros. Nunca tinha pensado muito nisso. Era um trabalho como outro qualquer: chegar, montar o passar a tinta, ir embora. Mas, quando viu o endereço na ordem de serviço, pediu para trocar com um colega. O chefe não deixou. “Ou você vai, ou eu o dia. Escolhe.”
O que ninguém na prefeitura sabia era que Dandara era o nome artístico de Jaqueline, a filha mais nova de Gilberto. E que a senhora de lenço na cabeça era a mãe dele, avó de Jaqueline, que tinha criado a neta enquanto ele trabalhava de dia e estudava à noite. A senhora tinha morrido dois anos antes. Jaqueline pintou o mural no aniversário de morte da avó. Gilberto foi ver uma única vez, de longe, e voltou para casa sem conseguir falar.
Na segunda-feira, às sete da manhã, ele estava lá, de uniforme, com o o balde e vinte latas de tinta cinza. Já havia algumas pessoas na calçada, com cartazes, e um repórter de uma rádio comunitária. Gilberto montou o devagar, mais devagar do que nunca. Começou pela ponta direita, pelas casas penduradas no morro. Depois pelas Depois pelas crianças. Cada metro coberto parecia levar uma hora. Quando chegou ao rosto da mãe, parou.
Ficou parado mais de vinte minutos, com o na mão, enquanto a tinta e secava no chão. As pessoas da calçada pararam de gritar. O repórter da rádio perguntou, em voz baixa, se estava tudo bem. Gilberto não respondeu. Desceu do guardou o no balde, tirou o celular do bolso e ligou para o chefe. Disse que podia o dia. Podia a semana. Mas aquela parte do ele não ia pintar, nem que o mandassem embora.
A conversa foi gravada pelo repórter e chegou às redes sociais antes do almoço. À tarde, o caso estava em todos os portais de notícias. À noite, a prefeitura divulgou uma nova nota: o mural seria “reavaliado por uma comissão técnica”. Duas semanas depois, a comissão concluiu que a obra tinha “relevante valor cultural para a comunidade” e autorizou que ela fosse restaurada. Gilberto recebeu uma advertência por escrito, que guarda numa pasta, junto com os documentos importantes da família.
O mural foi repintado em um fim de semana. Desta vez, Jaqueline não pintou de madrugada, nem sozinha. Ao lado dela, num segundo de uniforme da prefeitura, estava o pai, passando com cuidado o azul impossível do céu. Ela conta que ele não tem nenhum talento para desenho. Mas que ninguém, em São Paulo, sabe pintar um tão bem.
Comprehension check
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1. Why was the mural going to be painted over?
2. Who was the woman painted on the mural?
3. What did Gilberto do when he reached his mother's face?
4. How was the mural restored?