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Short story

O caderno preto de seu Jorge

Closing her Lebanese grandfather's old fabric shop in São Paulo, a woman finds the books where he wrote down eighty years of customers.

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Words to know (12)
  • o tecido · fabric
  • o corte · length of fabric
  • a prateleira · shelf
  • fiado · on credit
  • caprichado · careful, neat
  • o alfaiate · tailor
  • o vendedor ambulante · street vendor
  • folhear · to leaf through
  • o espanto · astonishment
  • adiantado · in advance
  • emoldurado · framed
  • pendurar · to hang

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A loja de Nassar & Filhos funcionou durante oitenta e dois anos no mesmo endereço da Rua 25 de Março, em São Paulo. Foi fundada em 1941 por Jorge Nassar, um rapaz de dezenove anos que chegou de Zahlé, no Líbano, com uma mala, dois de seda e um caderno de capa preta. Em 2023, sua neta Laila, cansada de competir com as lojas de importados e com a internet, decidiu fechar as portas.

Na última semana, enquanto esvaziava as Laila encontrou no fundo do cofre o tal caderno de capa preta, e mais onze iguais. Eram os livros de do avô. Ali estavam, com letra e num português cheio de erros, centenas de nomes: costureiras, donas de casa, vendedores recém-chegados de todas as partes do mundo. Ao lado de cada nome, o valor da compra e, quase sempre, uma palavra em árabe que Laila não conhecia.

Ela mostrou a palavra para a tia Samira, a única da família que ainda falava árabe. A tia riu. “Quer dizer depois. Seu avô escrevia isso quando a pessoa não podia pagar. Paga depois, quando der.” Laila os cadernos com Havia milhares de “depois”. Pelas contas dela, se todo mundo tivesse pagado, o avô teria morrido rico. Em vez disso, morreu numa casa alugada no Paraíso, cercado de netos e de

Por curiosidade, Laila fotografou algumas páginas e postou nas redes sociais da loja, junto com o anúncio do fechamento. Escreveu apenas: “O meu avô acreditava nas pessoas. Obrigada por oitenta e dois anos.” Não esperava muita coisa. Mas, em dois dias, a publicação tinha sido compartilhada milhares de vezes, e as mensagens começaram a chegar de todos os cantos do Brasil.

“Minha avó era costureira no Brás e aparece na página 34”, escreveu uma mulher de Curitiba. “Ela fez o vestido de noiva da minha mãe com um que o seu Jorge vendeu Um homem de Goiânia contou que o pai, um imigrante coreano, tinha começado a vida vendendo camisas compradas na Nassar sem pagar nada Uma senhora italiana de noventa anos ditou ao neto uma carta inteira de agradecimento.

No sábado, último dia da loja, Laila abriu as portas às oito da manhã e encontrou uma fila na calçada. Não eram clientes. Eram netos e bisnetos daqueles nomes, que tinham vindo com fotos, histórias e, alguns, com envelopes de dinheiro. “Minha mãe pediu que eu viesse pagar a conta dela”, disse um rapaz, estendendo um envelope. “Ela disse que estava devendo desde 1968.” Laila tentou recusar, mas ninguém aceitava o dinheiro de volta.

No fim do dia, havia na mesa do caixa uma quantia que não pagaria as dívidas da loja, mas que dava para outra coisa. Laila conversou com a tia Samira e com os primos e, um mês depois, abriu no mesmo endereço, num espaço bem menor, um pequeno ateliê de costura para refugiados recém-chegados a São Paulo. Na parede, ficou uma página do caderno preto do avô. E na porta, em vez do horário de funcionamento, ela uma placa com uma única palavra em árabe, que todo mundo na rua já sabia o que significava.

Comprehension check

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1. Why did Laila decide to close the shop?

2. What did the Arabic word in the notebooks mean?

3. Who was waiting outside on the last day?

4. What did Laila open at the same address?