Short story
O anjo de Ouro Preto
A police chief investigates the theft of a precious wooden angel from a church in Ouro Preto, and the laboratory report changes everything.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- o sacristão · sexton, church caretaker
- arrombar · to break open, force (a door)
- o antiquário · antique dealer
- o porta-malas · (car) trunk
- de boa-fé · in good faith
- a perícia · expert examination
- o laudo · expert's report
- ralo · weak, watery (of coffee)
- o marceneiro · carpenter, cabinetmaker
- gasto · worn
- tombado · listed as protected heritage
- o depoimento · statement, testimony
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Fazia quinze anos que a delegada Lúcia Ferraz não entrava numa igreja, e foi justamente uma igreja que estragou o seu domingo. Às sete da manhã, o padre Anselmo ligou desesperado: o anjo de madeira do altar lateral da Igreja de São Miguel, em Ouro Preto, tinha desaparecido durante a noite. A peça, atribuída a um discípulo do Aleijadinho, estava avaliada em alguns milhões de reais e era, segundo o padre, “a alma da paróquia”.
Lúcia chegou de mau humor e com o café ainda na mão. A porta não tinha sido o alarme não havia tocado e só três pessoas tinham a chave: o padre, a faxineira Dona Conceição e o seu Benedito, um homem de quase oitenta anos que trabalhava ali desde menino. “Se eu fosse a senhora, não perderia tempo com a gente”, disse o padre. “Ninguém aqui seria capaz disso.”
Mas Lúcia tinha aprendido que todo mundo é capaz de quase tudo. Pediu as imagens das câmeras da rua e descobriu um carro de São Paulo parado em frente à igreja às três da madrugada. A placa levou a um dos Jardins, conhecido da polícia por comprar arte sacra sem fazer muitas perguntas. Dois dias depois, o anjo foi encontrado embrulhado num cobertor, no de um carro, numa estrada perto de Mariana. O jurou que o tinha comprado de de um desconhecido.
O caso parecia resolvido. Antes de devolver a peça, porém, o museu estadual fez uma de rotina. O chegou numa sexta-feira e deixou Lúcia sem palavras: a madeira tinha, no máximo, quarenta anos. O anjo roubado era uma cópia. Uma cópia excelente, mas uma cópia. Ou seja, o ladrão tinha arriscado anos de prisão por uma peça que não valia quase nada. E, pior, o original continuava desaparecido, talvez havia décadas.
Lúcia voltou a Ouro Preto e foi direto à casa do Seu Benedito a recebeu com um café e não pareceu surpreso. “Eu sabia que um dia alguém ia descobrir”, disse ele, olhando para as mãos. “Em 1984, roubaram três imagens de igrejas aqui da região. Fiquei com medo de que levassem o nosso anjo também. Meu irmão era Pedi que ele fizesse uma cópia, e a gente trocou as duas numa noite de chuva. Nem o padre da época ficou sabendo.”
“E onde está o original, seu Benedito?” O velho se levantou devagar e abriu a porta de um quarto nos fundos. Lá, entre caixas de papelão e um guarda-roupa antigo, estava o anjo verdadeiro, com as asas um pouco e o mesmo sorriso discreto da cópia. “Eu ia devolver quando a cidade ficasse mais segura”, explicou. “Mas a cidade nunca ficou, e eu fui ficando velho.”
Lúcia passou um bom tempo em silêncio. Tecnicamente, aquilo era apropriação de um bem e ela deveria levar o para prestar Em vez disso, ligou para o padre Anselmo e para o diretor do museu. Uma semana depois, o anjo original foi levado para uma sala com vidro blindado e câmeras, e a cópia voltou para o altar. Na placa ao lado do anjo, o museu escreveu: “Protegido durante quarenta anos por Benedito dos Santos, Seu Benedito foi à inauguração de terno e gravata, e Lúcia, pela primeira vez em quinze anos, ficou até o fim da missa.
Comprehension check
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1. What was strange about the night of the theft?
2. What did the museum's report reveal?
3. Why did Benedito swap the statues in 1984?
4. What did Lúcia do in the end?