Deep End
← Upper-intermediate stories

Short story

O caderno do fundo

A Portuguese teacher at a public school on the edge of Salvador tries to understand the student who never hands in an essay.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o concurso · public-service entrance exam
  • rouco · hoarse
  • a carteira · school desk
  • bagunceiro · rowdy, disruptive
  • dar de ombros · to shrug
  • a merenda · school meal
  • miúdo · tiny, small
  • o molde · mold, template
  • o sarau · poetry evening, open-mic reading
  • de jeito nenhum · no way, not at all
  • o chinelo · flip-flop
  • arder · to sting, to burn

Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.

Quando Luana foi aprovada no para professora da rede estadual, imaginou muitas coisas, mas não imaginou o calor. A escola de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, tinha salas com quarenta alunos, dois ventiladores quebrados e uma vista linda para a Baía de Todos-os-Santos, que ninguém tinha tempo de olhar. Ela dava aulas de português para três turmas do segundo ano e voltava para casa toda noite e convencida de que não tinha ensinado nada.

Na turma B havia um aluno que a intrigava. Davi sentava sempre na última perto da janela, e nunca entregava as redações. Não era nem mal-educado; pelo contrário, prestava atenção, às vezes até fazia perguntas inesperadas. Mas, quando ela pedia um texto, ele dizia que tinha esquecido, ou que não sabia o que escrever, ou simplesmente dava de Os outros professores já tinham desistido dele. “Esse aí só vem pela comentou um colega na sala dos professores.

Luana não acreditava nisso, embora não tivesse nenhuma prova do contrário. Até que, numa quinta-feira, Davi saiu correndo no fim da aula e deixou para trás um caderno velho, de capa azul. Ela hesitou antes de abri-lo. Sabia que não devia. Abriu mesmo assim. Não havia uma única anotação de aula. Havia poemas: dezenas de poemas, escritos a lápis, com letra sobre o trem que não passa mais, sobre a mãe que sai às cinco da manhã, sobre o mar que fica tão perto e tão longe.

No dia seguinte, ela devolveu o caderno sem dizer nada, e ele também não disse nada. Mas, na outra semana, Luana pediu que ele ficasse depois da aula. Perguntou, com cuidado, por que alguém que escrevia daquele não entregava as redações. Davi demorou a responder. “Redação tem regra, professora. Introdução, desenvolvimento, conclusão. Se eu escrever do meu a senhora vai dar zero.” Depois acrescentou, mais baixo: “E eu cuido dos meus irmãos de noite. Não sobra tempo pra escrever duas vezes.”

Luana pensou durante dias no que ele tinha dito. Concordava em parte: a escola, às vezes, ensinava a escrever como se todo mundo tivesse que caber no mesmo Por outro lado, sabia que o ENEM não ia perdoar Davi por ser poeta. Então fez uma proposta. Ele entregaria uma redação por mês, seguindo as regras, e ela leria, sem nota, um poema por semana. “Se você aprender o jogo deles”, disse, “ninguém vai poder te impedir de jogar o seu.”

Foi um acordo difícil. As primeiras redações eram duras, sem graça, como se doesse escrevê-las. Aos poucos, porém, alguma coisa dos poemas começou a aparecer nelas: uma imagem, um ritmo, uma frase que fazia a professora parar de corrigir e simplesmente ler. Em outubro, Luana inscreveu a turma inteira num organizado por uma biblioteca comunitária do bairro. Davi disse que não ia de

Foi. Chegou atrasado, de com a irmã menor pela mão, e ficou encostado na parede do fundo, como na sala de aula. Quando chamaram o nome dele, Luana achou que ele fosse fugir. Ele subiu no pequeno palco improvisado, tirou do bolso uma folha dobrada e leu um poema sobre uma professora que chegava à escola suada e e mesmo assim não ia embora. Ninguém aplaudiu mais alto do que a menina de sete anos que estava na primeira fila. Luana, de pé no fundo, não conseguiu aplaudir: estava ocupada demais fingindo que era o calor que fazia seus olhos

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the other teachers think of Davi?

2. What did Luana find in Davi's notebook?

3. What deal did Luana propose?

4. What was Davi's poem at the sarau about?