Short story
O lanterninha
A young lighting technician who doesn't believe in ghosts starts working late at the Teatro Amazonas in Manaus and makes an unusual friend.
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Words to know (12)
- o lanterninha · usher (in a theater or movie theater)
- a plateia · audience, orchestra seating
- o camarote · theater box
- assombrado · haunted
- o refletor · spotlight
- emaranhado · tangled
- ranger · to creak
- a alavanca · lever
- o vaga-lume · firefly
- a batuta · baton
- franzir a testa · to frown
- o parapeito · railing, parapet
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Kauã Pinheiro tinha vinte e seis anos, um diploma de técnico em iluminação cênica e nenhuma crença em fantasmas quando começou a trabalhar no Teatro Amazonas, em Manaus. Os colegas mais antigos contavam histórias, claro: passos na vazia, um cheiro de charuto num uma cortina que se mexia sem vento. Kauã ouvia tudo com educação e achava graça. Para ele, um teatro de mais de cem anos fazia barulho porque era velho, não porque era
Na sua terceira semana, ficou até tarde ajustando os para a estreia de uma ópera. Por volta da meia-noite, enquanto lutava com um cabo no alto da galeria, ouviu uma voz atrás dele: “Esse aí não adianta puxar, meu filho. Tem que soltar por baixo.” Era um senhor baixinho, de bigode fino, com um uniforme azul-escuro de botões dourados, desses que só se veem em fotografia antiga. Kauã imaginou que fosse algum funcionário aposentado que ainda frequentava a casa.
O senhor se apresentou como Belmiro, desde 1928”, e disse a frase com tanto orgulho que Kauã não teve coragem de rir. A partir daquela noite, ele aparecia sempre depois das onze, quando o teatro esvaziava. Sabia tudo: em que ponto do palco a voz dos cantores soava melhor, qual degrau por onde entrava a umidade nas noites de chuva. Mostrou a Kauã uma escondida atrás de um painel de madeira, que ligava um circuito antigo de emergência que ninguém usava havia décadas.
Na noite da estreia, com a lotada e a orquestra no segundo ato, uma tempestade derrubou a energia de metade de Manaus. O teatro ficou no escuro. Houve gritos, celulares acenderam como o maestro parou com a no ar. O gerador principal não ligava. Kauã, no alto da galeria, lembrou-se da Desceu as escadas correndo, encontrou o painel no escuro, puxou com toda a força, e as luzes antigas do lustre se acenderam devagar, amareladas, quase douradas.
A ópera continuou à luz do circuito de 1928, e o público, achando que fazia parte do espetáculo, aplaudiu de pé no final. No dia seguinte, o diretor do teatro chamou Kauã para agradecer e perguntou, curioso, como ele sabia daquela que não aparecia em nenhuma planta do prédio. Kauã contou que tinha sido seu Belmiro, o aposentado. O diretor a testa. Não havia nenhum Belmiro entre os funcionários, nem ativos, nem aposentados.
Intrigado, Kauã foi ao arquivo do teatro naquela tarde. Levou horas folheando livros de registro, até encontrar, numa página amarelada de 1951, a foto de um homem baixinho, de bigode fino e uniforme azul de botões dourados. Embaixo, uma nota curta: Belmiro Saraiva, falecido durante a apresentação da noite de 14 de março, no seu posto de trabalho, após vinte e três anos de serviço. Kauã sentiu as mãos geladas. Fechou o livro com cuidado, como se alguém pudesse ouvir.
Naquela noite, ele voltou a ficar até tarde, mas seu Belmiro não apareceu. Nem na noite seguinte, nem na outra. Kauã chegou a pensar que tinha sonhado tudo. Na sexta-feira, antes de ir embora, deixou um copinho de café quente no da galeria, onde o velho costumava se sentar, e disse em voz alta, meio sem graça: “Obrigado, seu Belmiro.” Na manhã seguinte, o copinho estava vazio. Ao lado dele, alguém tinha deixado, com a letra caprichada de antigamente, um bilhete curto: “Agora a casa está bem cuidada. Boa noite, meu filho.”
Comprehension check
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1. What did Kauã think of his colleagues' ghost stories at first?
2. What did Belmiro show Kauã?
3. What did the director tell Kauã?
4. What did Kauã find the morning after he left the coffee?