Short story
O passageiro da BR-116
On a foggy night in the Bahian backlands, a truck driver breaks his own rule and gives a ride to an old man who asks him to deliver a letter.
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Words to know (12)
- a carona · ride
- a divisa · state border
- a neblina · fog
- passado · ironed
- a bobagem · something silly
- despedir-se · to say goodbye
- o marco · marker, milestone
- o porta-luvas · glove compartment
- pálido · pale
- a ribanceira · steep roadside drop
- zangado · angry
- buzinar · to honk the horn
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Valdeci dirigia caminhão havia vinte e dois anos e tinha uma regra que nunca quebrava: não dar a ninguém depois que escurecia. Mas naquela noite de junho, na BR-116, entre Vitória da Conquista e a de Minas, a estava tão grossa e o velho na beira da estrada parecia tão frágil, com o chapéu de couro na mão e a camisa branca bem que ele parou sem pensar duas vezes.
O homem disse que se chamava Lino e que precisava chegar a Cândido Sales antes do amanhecer. Falava pouco, com um sotaque do sertão antigo, e tinha um cheiro de terra molhada que Valdeci achou estranho, já que não chovia havia meses. Durante a viagem, contou que tinha brigado com a mulher muito tempo atrás, por uma e que saíra de casa sem se “Desde então, eu tento voltar”, disse, olhando a escuridão pela janela. “Mas a estrada é comprida.”
Pouco antes da cidade, ele pediu para descer num ponto onde não havia nada além de um de quilômetro e uma cruz de madeira coberta de flores de plástico. Valdeci estranhou, mas parou. O velho tirou do bolso da camisa um envelope amarelado e o entregou com as duas mãos. “O senhor me faria um favor? Entrega isso pra Dona Ana, na Rua da Matriz. Ela vai entender.” Antes que Valdeci pudesse responder, ele fechou a porta e desapareceu na
No dia seguinte, Valdeci quase deixou o envelope no e seguiu viagem. Não conseguiu. Perguntou na padaria pela Rua da Matriz e por Dona Ana, e todos sabiam quem era: uma senhora de quase noventa anos, viúva, que morava na casa verde ao lado da igreja. Ela o recebeu na varanda, educada mas desconfiada. Quando viu a letra no envelope, porém, ficou e precisou se segurar na cadeira.
“Onde o senhor conseguiu isso?”, perguntou, quase sem voz. Valdeci contou a história da da do velho de camisa branca. Dona Ana abriu o envelope com as mãos tremendo e leu em silêncio. Depois, sem dizer nada, entrou em casa e voltou com uma fotografia antiga: um homem de chapéu de couro e camisa branca, encostado num caminhão. Era o mesmo rosto. “É o meu marido, Lino”, disse ela. “Morreu num acidente nessa estrada, no quilômetro da cruz, em 1987. Estava voltando pra casa, depois da nossa briga.”
A carta tinha a data do dia do acidente. Nela, Lino pedia desculpas pela briga, dizia que tinha sido um burro e que estaria em casa antes do amanhecer, “pra gente tomar café juntos como sempre”. Dona Ana explicou que nunca tinha recebido aquela carta: devia estar no bolso dele quando o caminhão caiu na Durante trinta e sete anos, ela acreditou que o marido tinha morrido ainda com ela. Valdeci não sabia o que dizer. Ficou ali, sentado na varanda, segurando uma xícara de café que ela tinha feito sem perguntar se ele queria.
Antes de ele ir embora, Dona Ana escreveu uma resposta numa folha de caderno, dobrou com cuidado e pediu que ele a deixasse na cruz do quilômetro. Valdeci fez isso naquela mesma tarde, prendendo o papel entre as flores de plástico com uma pedra. Desde então, ele passa por aquele trecho da BR-116 pelo menos uma vez por mês, quase sempre de noite. Nunca mais viu ninguém na beira da estrada. Mas, toda vez que passa pela cruz, duas vezes, e jura que, mesmo com as janelas fechadas, sente um cheiro de café fresco dentro da cabine.
Comprehension check
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1. What rule did Valdeci never break, until that night?
2. What did the old man say he had done long ago?
3. What did Dona Ana show Valdeci?
4. Why had Dona Ana never received the letter?