Short story
Plantão de sexta
On his first night shift alone in a public hospital in Recife, a young doctor meets the patient who comes every Friday with the same complaint.
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Words to know (12)
- o plantão · (night) shift, on-call duty
- a residência · medical residency
- o pronto-socorro · emergency room
- a maca · stretcher, gurney
- a véspera · eve, day before
- de um pulo · with a jump, in one leap
- a solidão · loneliness
- o suor · sweat
- o principiante · beginner
- o infarto · heart attack
- inconfundível · unmistakable
- o bolo de rolo · rolled guava cake from Pernambuco
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Tiago tinha vinte e sete anos e duas certezas: que a em clínica médica era o que ele sempre quis e que não estava pronto para o primeiro sozinho. O do hospital público no centro do Recife, numa sexta-feira à noite, parecia uma rodoviária em de feriado. Havia gente nas nas cadeiras, no corredor, e um ventilador de teto que girava sem refrescar ninguém.
Quem o salvou nas primeiras horas foi Fátima, a enfermeira-chefe, que trabalhava ali havia vinte anos e tinha visto passar uns cem residentes como ele. Ela sabia onde estava cada coisa, quem precisava de atenção imediata e quem podia esperar. “Calma, doutor”, dizia, quando ele começava a falar rápido demais. “Ninguém aqui vai morrer porque o senhor respirou fundo.”
Às duas da manhã, Fátima apareceu com uma ficha e um sorriso cansado. “Chegou a dona Creuza. Dor no peito.” Tiago se levantou de um mas a enfermeira o segurou pelo braço. “Ela vem toda sexta, doutor. Faz dois anos. Mora sozinha em Afogados, não tem ninguém. A gente faz um exame, conversa um pouco, ela toma um chá e vai embora de manhã. Não tem nada no coração dela além de
Dona Creuza tinha setenta e oito anos, um vestido florido e um jeito de falar que fazia qualquer um se sentir neto dela. Quis saber se Tiago era casado, se comia direito, se a mãe dele sabia que ele trabalhava de madrugada. Disse que a dor era “igual à de sempre, só que um pouquinho diferente”. Ele quase riu. Estava exausto, havia doze pacientes esperando, e a tentação de fazer o mínimo era enorme.
Mesmo assim, alguma coisa naquele “um pouquinho diferente” o incomodou. Talvez fosse o na testa dela, numa noite em que todo mundo suava. Talvez fosse só o medo de Ele pediu um eletrocardiograma completo e um exame de sangue, embora Fátima o olhasse como quem diz que aquilo era perda de tempo. “Se não for nada, eu pago o café de todo mundo amanhã”, prometeu.
O eletrocardiograma saiu vinte minutos depois. Tiago o leu duas vezes antes de acreditar. Era um pequeno, no começo, mas Daí em diante tudo aconteceu muito rápido: os remédios, a ligação para a cardiologia, a correndo pelo corredor. Às quatro e meia, dona Creuza estava na sala de hemodinâmica, e às seis o cardiologista de desceu para dizer que ela tinha tido muita sorte.
Quando o sol começou a entrar pelas janelas sujas do Fátima trouxe dois copos de café e se sentou ao lado dele. Ficou um tempo calada. “Eu teria mandado ela pra casa”, disse por fim. “Vinte anos de profissão e eu teria mandado ela pra casa.” Tiago não soube o que responder. Pensou que, se tivesse ouvido só a enfermeira, ou só o cansaço, a história seria outra.
Na sexta-feira seguinte, às duas da manhã, a recepção avisou que uma senhora de vestido florido queria falar com “o doutor novo”. Dona Creuza não sentia dor nenhuma. Tinha vindo de táxi, com a receita no bolso, só para trazer um bolo de “Pra ele e pra enfermeira”, disse, “que eu sei que ela também cuidou de mim.”
Comprehension check
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1. What did Fátima think about dona Creuza at first?
2. What made Tiago order a full set of tests?
3. What did the electrocardiogram show?
4. Why did dona Creuza come back the next Friday?