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Short story

A Cidade Que Voltou

Forty years after the Sobradinho dam flooded her home town, a drought brings its ruins back to the surface.

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Words to know (12)
  • a barragem · dam
  • a água encanada · running water
  • o palmo · hand's breadth
  • rachar · to crack
  • o lobisomem · werewolf
  • ceder · to give in
  • o lodo · silt, slime
  • o alicerce · foundation
  • o batente · door frame
  • o arrepio · shiver
  • o caco · shard, broken piece
  • o aparelho de jantar · dinner set

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Dona Iracema tinha vinte e seis anos quando as águas subiram. Era 1977, e o governo estava construindo no rio São Francisco a de Sobradinho, que ia formar um dos maiores lagos artificiais do mundo e gerar energia para boa parte do Nordeste. Para isso, quatro cidades e dezenas de povoados da beira do rio tinham de desaparecer. Um deles era São Gonçalo da Barra, onde Iracema tinha nascido, casado e enterrado a mãe.

Os engenheiros vieram com mapas e promessas: cidade nova, casa de alvenaria, luz elétrica, água escola. Muita gente acreditou; outros não quiseram sair até que a água entrasse pela porta. O pai de Iracema foi um desses. Ficou sentado na varanda, vendo o rio subir um por dia, até que os soldados o carregaram, com cadeira e tudo, para dentro de um caminhão. A cidade nova ficou a quarenta quilômetros, num chão de pedra longe do rio, e as casas de alvenaria no primeiro ano.

Durante quarenta anos, São Gonçalo ficou no fundo do lago. Iracema criou os filhos na cidade nova, ficou viúva, virou avó, e nunca voltou à beira da água. Os netos achavam exagero aquela história de cidade debaixo do lago. Para eles, o lago sempre tinha estado ali, azul, imenso, com barcos de pesca e turistas de jet ski. A cidade velha era uma coisa que a avó contava, como as histórias de e de mula sem cabeça.

Então veio a grande seca, a pior em um século. O lago de Sobradinho foi baixando mês a mês, até chegar a menos de cinco por cento da capacidade. E, num dia de novembro, um pescador apareceu na cidade nova com uma notícia que correu mais que vento: lá onde antes era água funda, tinha surgido uma torre de igreja.

Iracema pediu ao neto mais velho, Júnior, que a levasse. Ele resistiu, por causa do sol, da idade dela, do joelho ruim; depois porque ninguém nunca tinha ganhado uma discussão com a avó. Foram de moto até onde a estrada deixava e depois a pé, por um chão cinzento, coberto de conchas e de esqueletos de peixe, que ainda cheirava a lago. Ao longe, tremendo no calor, apareceu a torre.

A igreja de São Gonçalo estava sem telhado e sem portas, com as paredes manchadas de até uns três metros de altura, como a marca de uma maré. Em volta dela, o traçado das ruas era perfeitamente visível: os das casas, os das portas, o calçamento de pedra da praça. Iracema andou pela cidade como quem anda pela própria casa no escuro, sem hesitar, contando os passos. Dobrou a primeira rua à direita e parou diante de uns tijolos meio enterrados.

“Aqui era a sala”, disse. “Ali a cozinha. Teu bisavô ficou sentado bem aqui, ó, nessa varanda, até o fim.” Júnior, que tinha dezenove anos e não acreditava em quase nada, sentiu um A avó se abaixou com dificuldade, cavou um pouco com as mãos na lama seca, perto de onde dizia ter sido a cozinha, e tirou de lá um de louça azul e branca. Limpou na saia. “É do de jantar da minha mãe. Ela não quis trazer. Disse que prato de pobre não pesa, mas a lembrança pesa.”

Ficaram até o sol baixar. Na volta, Iracema não falou nada; levava o no colo, enrolado num lenço, como quem leva um passarinho machucado. Júnior foi pensando que nunca tinha perguntado à avó como era a cidade e que agora, de repente, tinha mil perguntas. Começou a fazê-las naquela mesma noite, com o celular gravando em cima da mesa da cozinha.

As chuvas voltaram dois anos depois, e o lago encheu de novo, devagar, cobrindo outra vez a igreja, as ruas, a varanda do bisavô. Iracema assistiu de longe, sem tristeza. “Agora tanto faz”, disse ao neto. “A cidade voltou pra debaixo d'água, mas você está com ela aí no telefone. Lugar só some de verdade quando ninguém sabe mais contar.” O de louça azul está até hoje numa moldura, na parede da sala, ao lado do retrato de casamento dela.

Comprehension check

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1. Why did São Gonçalo da Barra disappear?

2. How did Iracema's father leave the old town?

3. What did Iracema find in the ruins of her house?

4. Why isn't Iracema sad when the lake fills up again?