Short story
A navalha de seu Dirceu
An old barber in São Paulo's Bixiga tells us about the one client who has never said a word in eleven years, until the day he does.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (11)
- que se preza · self-respecting
- a tesoura · scissors
- a capa · barber's cape
- o cofre · safe (for valuables)
- cá entre nós · between you and me
- a gorjeta · tip
- o entregador · delivery man
- bobo · stupid, a fool
- a navalha · straight razor
- caprichar · to take great care over something
- o queixo · chin
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Barbeiro que se não pergunta, escuta. Isso eu aprendi com meu pai, que cortou cabelo nesta mesma cadeira, aqui no Bixiga, de 1961 até o dia em que a mão começou a tremer e ele, por dignidade, passou a pra mim. A cadeira é a mesma, o espelho é o mesmo, com aquela mancha no canto que parece o mapa do Paraná. Só mudou o preço, e o assunto: antigamente era futebol e política; hoje é futebol, política e criptomoeda, que eu não sei o que é e nem pretendo saber.
O cliente fala. Fala mais do que fala com a mulher, com o padre, com o analista. Deve ser a a pessoa ali, enrolada até o pescoço, sem os braços, de frente pro próprio rosto, não tem pra onde fugir. Em quarenta anos de profissão eu já ouvi confissão de traição, de dívida, de time trocado na juventude, que é o pior pecado que existe. E guardo tudo. Barbeiro é
Menos o seu Nogueira. O seu Nogueira vem a cada três semanas, numa terça, às dez da manhã, há onze anos. Senta, diz “o de sempre”, fecha os olhos e não abre mais até eu tirar a Nunca falou do tempo, nunca reclamou do prefeito, nunca me perguntou do Corinthians, o que, entre nós, eu achava até uma falta de educação. Paga, deixa dois reais de diz “até daqui a três semanas” e vai embora. Onze anos assim. Eu sabia mais da vida do de gás que passa na rua do que da vida dele.
Pois um belo dia o seu Nogueira chegou fora do dia. Era quinta. Sentou, não fechou os olhos e, pela primeira vez, ficou se olhando no espelho, bem na mancha do Paraná. “Hoje não é o de sempre”, ele disse. “Quero uma coisa mais moderna. Mas não muito. Uma coisa que um rapaz de trinta anos não ache ridícula.”
Eu, que sou barbeiro mas não sou fiquei quieto e esperei. A trabalha melhor que pergunta. Lá pelo segundo lado, ele começou. Tinha um filho. Tinha deixado o filho com três anos, em Londrina, por motivos que, segundo ele, nem eram bons motivos, eram só os motivos que ele tinha na época. O rapaz tinha descoberto o nome dele numa dessas redes sociais e mandado uma mensagem curta, sem raiva nem carinho: “Vou estar em São Paulo sábado. Se o senhor quiser, a gente toma um café.”
“Trinta anos”, ele repetiu. “E a primeira coisa que eu penso é no cabelo. Que tipo de homem pensa no cabelo?” Eu disse que todo tipo. Que o cabelo é a única parte da gente que a gente controla quando todo o resto escapa. Disse isso com a no pescoço dele, o que dá às palavras uma autoridade que nenhum padre tem.
como não nem em noivo. Quando tirei a ele se olhou um tempo comprido e disse que parecia dez anos mais novo, o que era mentira, mas uma mentira que ele merecia. Quis pagar. Eu não deixei. Ele insistiu, eu insisti mais, e no fim combinamos que ele me pagaria depois do café, contando como tinha sido.
Ele não voltou na terça seguinte, nem na outra. Eu, que sou comecei a ficar preocupado feito mãe. Na quarta semana, entrou na barbearia um rapaz de uns trinta anos, com o do seu Nogueira e um cabelo que, com todo o respeito, estava um desastre. Sentou na cadeira, olhou a mancha no espelho e disse: “Meu pai falou que o senhor ainda não recebeu pelo último corte. Ele mandou pagar. E mandou eu cortar aqui, que é o único lugar onde ele fala.”
Cortei. Não cobrei também. Tem dívida que é melhor deixar aberta, porque é ela que traz o cliente de volta.
Comprehension check
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1. What did Seu Nogueira usually do during his haircut?
2. Why did Nogueira want a different haircut?
3. How did the barber and Nogueira settle the payment?
4. Who came into the barbershop in the fourth week?