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Short story

O último áudio do tio Arlindo

At a family wake in São Paulo, a lawyer plays a recording the dead uncle left for the occasion, and nobody is safe.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o velório · wake
  • a purpurina · glitter
  • o chifre · horn (chifrinho: little horn)
  • o rancor · grudge
  • o alto-falante · loudspeaker
  • o falecido · the deceased
  • a herança · inheritance
  • chiar · to crackle, hiss
  • o pavê · layered cookie-and-cream dessert
  • achar graça · to find funny
  • o palanque · platform for speeches
  • a furadeira · electric drill

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O tio Arlindo morreu como viveu: de forma inconveniente, numa terça-feira de Carnaval, quando metade da família estava no litoral e a outra metade estava fantasiada. O foi marcado às pressas numa capela da Vila Mariana, e Cecília, a sobrinha que sempre resolvia tudo, passou a manhã ao telefone convencendo primos a trocar a por roupa escura. Nem todos conseguiram. O primo Válter chegou com uma tiara de de diabo esquecida na cabeça, e ninguém teve coragem de avisar.

Arlindo tinha sido, durante oitenta e um anos, o tipo de homem que as famílias adoram nos aniversários e temem nos casamentos. Contava piadas na hora errada, guardava com zelo de colecionador e tinha o hábito de anunciar verdades que ninguém tinha pedido. Por isso, quando o advogado dele apareceu na capela com um pequeno e explicou que o deixara “uma breve mensagem de despedida, a ser executada durante o conforme cláusula testamentária”, um silêncio de pânico se espalhou pela sala.

A tia Marlene, viúva oficial, quis impedir. O advogado, um senhor magro que parecia ter nascido de terno, lamentou: a cláusula era clara, e a embora modesta, estava condicionada ao cumprimento dela. Ninguém mais se opôs. Dinheiro é um grande pacificador.

O e a voz do tio Arlindo encheu a capela, rouca e satisfeita: “Boa tarde, minha gente. Se vocês estão ouvindo isto, é porque eu finalmente ganhei a discussão com o meu cardiologista. Não chorem muito, que eu sei que metade de vocês está aqui pela e a outra metade pelo café.” A tia Marlene fechou os olhos. Alguém, no fundo, deixou escapar uma risada e a transformou, com notável presença de espírito, numa crise de tosse.

Seguiram-se quinze minutos que entrariam para a história da família. O tio pediu desculpas à cunhada por ter dito, em 1987, que o dela tinha gosto de sabonete: “Eu estava certo, mas não precisava ter dito na frente do padre.” Revelou que o famoso relógio suíço do avô, disputado por três gerações, era falsificado e tinha sido comprado na rua 25 de Março. Confessou à esposa que nunca tinha ido pescar nos fins de semana, de 1972 a 1990; ia ao estádio ver o Santos jogar, escondido, porque a família inteira era palmeirense, e um homem precisa de um segredo para se manter interessante.

A cada revelação, a capela reagia em ondas: indignação, espanto, e um riso que ninguém conseguia mais conter. O primo Válter, com seus chorava de rir abraçado ao caixão. A tia Marlene, que tinha começado a sessão rígida como uma estátua, terminou com um lenço na boca e os ombros tremendo, e Cecília nunca soube dizer, nem depois, se a tia chorava ou se, pela primeira vez em cinquenta anos de casamento, achava no marido.

A última parte do áudio era mais curta. A voz mudou, perdeu o tom de “Marlene, o resto é com você. Eu sei que fui um marido cansativo. Mas você riu de todas as minhas piadas, até das ruins, e isso eu nunca agradeci. Obrigado. E, Válter...” A família inteira se virou para o primo. “...devolve a que você pegou emprestada em 1998. Ela era da Marlene.”

Válter tirou a tiara devagar, com a dignidade possível. Na semana seguinte, a apareceu na porta da tia, embrulhada em papel de presente, com um bilhete que dizia apenas “desculpa a demora”. Marlene a guardou no armário, ao lado das camisas do marido, e passou a contar a história do em todas as festas da família, sempre na hora errada, sempre rindo antes do final.

Comprehension check

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1. Why was the timing of Uncle Arlindo's death inconvenient?

2. Why did nobody stop the lawyer from playing the recording?

3. Where did Arlindo really go on the weekends he said he went fishing?

4. What did Marlene do after the funeral?