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Short story

Onze anos de bom-dia

Two neighbors in a Copacabana building who have only ever said good morning to each other get stuck together in the elevator during a blackout.

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Words to know (12)
  • o aceno · nod, wave
  • embaralhar-se · to get mixed up
  • o tropeço · stumble, slip
  • o compasso · bar (in music)
  • o síndico · building manager
  • o solavanco · jolt
  • o cubículo · cramped little space
  • o náufrago · castaway
  • a bula · leaflet inside a medicine box
  • descartar · to discard
  • desfazer-se · to come undone
  • o apagão · blackout

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Durante onze anos, Otávio e a vizinha do 702 trocaram, no elevador do Edifício Guaporé, em Copacabana, exatamente duas palavras por dia. De manhã, “bom dia”; à noite, “boa noite”; aos domingos, quando os horários se um de cabeça que podia significar qualquer uma das duas coisas. Ele sabia que ela se chamava Lúcia porque o nome vinha nas contas que o porteiro deixava, por engano, na caixa dele. Ela sabia, presumivelmente, o nome dele pelo mesmo motivo. Nunca tinham ido além disso, e Otávio considerava esse silêncio uma das poucas instituições cariocas que ainda funcionavam.

Havia, porém, o piano. Toda noite, por volta das onze, alguém no prédio começava a tocar, sempre as mesmas peças, com os mesmos no mesmo Otávio, que dormia cedo por convicção e acordava cedo por profissão, escrevera três bilhetes anônimos ao O terceiro, do qual não se orgulhava, terminava com a frase “Há quem trabalhe neste país”. O afixou os três no quadro de avisos, ao lado do elevador, com um comentário seco: “Favor resolver entre vizinhos.”

Numa quinta-feira de janeiro, a luz acabou entre o quarto e o quinto andar. O elevador deu um soltou um gemido metálico e parou. Na escuridão completa, Otávio ouviu a respiração de Lúcia e, em seguida, a voz dela, mais grave do que ele imaginava: “Bom, pelo menos agora a gente não precisa fingir que não se vê.”

Ele riu, e o riso, naquele soou quase indecente. Acenderam as lanternas dos celulares e descobriram que estavam sentados no chão, um de frente para o outro, como dois educados. Ela contou que era revisora de de remédio, profissão que, segundo ela, exigia uma paciência quase religiosa e deixava a pessoa permanentemente convencida de que tudo na vida tem efeitos colaterais. Ele contou que era dentista, e ela respondeu que, nesse caso, entendia perfeitamente por que ele nunca sorria no elevador.

Meia hora depois, já tinham falado do calor, do da sobrinha dela que morava em Recife e do pai dele, que tinha sido músico de bar na Lapa. Foi então que Otávio, num impulso que atribuiu ao calor, confessou: “Sabe o piano? Aquele das onze horas? Fui eu que escrevi os bilhetes.” Lúcia ficou calada por tanto tempo que ele achou que a bateria do celular dela tinha acabado junto com a paciência.

“Eu sei”, ela disse por fim. “A letra é de dentista. E ninguém mais escreve daquele jeito sobre quem trabalha neste país.” Fez uma pausa. “O piano é meu. Comecei a aprender aos sessenta e dois anos, depois que meu marido morreu. Ele tocava. Eu nunca tive coragem enquanto ele estava vivo, porque ele tocava bem demais.”

Otávio pensou em várias respostas e todas. Pensou no pai, nos daquelas peças, no mesmo de sempre, e percebeu, com um constrangimento que lhe esquentou as orelhas, que nos últimos meses já não conseguia dormir antes de ouvir o Que esperava por ele. Que, nas noites em que o piano não tocava, ficava acordado imaginando que alguma coisa tinha acontecido no 702.

A luz voltou às oito e quarenta. O elevador retomou a subida como se nada tivesse acontecido, e os dois se levantaram, sacudindo a poeira das roupas com uma formalidade um pouco exagerada. No sétimo andar, Lúcia saiu e disse “boa noite”. Otávio respondeu “boa noite”. Onze anos de hábito não se num

Mas, no dia seguinte, o quadro de avisos tinha um quarto bilhete, desta vez assinado. Dizia apenas: “Prezado retiro as reclamações anteriores. O dezessete ainda precisa de trabalho, mas eu me ofereço para ouvir. Otávio, 804.” E, naquela noite, às onze em ponto, o piano tropeçou no mesmo lugar, e alguém, no oitavo andar, sorriu no escuro.

Comprehension check

0/4 answered

1. How did Otávio know his neighbor's name?

2. What does Lúcia do for a living?

3. Why did Lúcia never play the piano while her husband was alive?

4. What did Otávio's fourth note say?