Deep End
← Advanced stories

Short story

Crônica sobre nada

A Rio newspaper columnist with a deadline at six and nothing to write about goes downstairs to the lobby.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (11)
  • a redação · newsroom
  • render · to be productive, to give good material
  • a esteira ergométrica · treadmill
  • o cabide · clothes hanger
  • a matéria-prima · raw material
  • inesgotável · inexhaustible
  • a credora · creditor (woman)
  • a portaria · front desk, doorman's lobby
  • o batom · lipstick
  • o selo · stamp (postage)
  • o carimbo · postmark

Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.

São três e quarenta da tarde, e a crônica de amanhã tem que estar na às seis. Escrevo isto para registrar, com a honestidade que se espera de um profissional, que não tenho assunto. Não tenho assunto desde segunda. Na verdade, desconfio que não tenho assunto desde 2019 e que venho sobrevivendo de restos: uma lembrança da infância aqui, um pombo filosófico ali, uma chuva de verão que sempre porque ninguém no Rio se cansa de ler sobre chuva de verão.

Tentei o método clássico. Fui à janela. O cronista que se preza vai à janela e volta com uma epifania sobre a condição humana. Eu voltei com a informação de que o vizinho da frente comprou uma e a usa como É um dado sociológico, admito, mas não enche uma coluna.

Tentei o método moderno. Abri as redes sociais em busca da indignação do dia, essa Havia três: um ministro, um técnico de futebol e uma receita de feijoada com quinoa. Comecei um parágrafo furioso sobre a quinoa e apaguei. Não tenho mais idade para brigar com grão.

Às quatro e quinze, desci para comprar cigarro, embora tenha parado de fumar em 2011. É o que faço quando a página em branco me olha com aquele ar de Na o seu Josué estava, como sempre, de olho no movimento da rua, com o rádio baixinho e a palavra cruzada pela metade. Seu Josué é porteiro do prédio há vinte e seis anos e é, sem exagero, o homem mais bem informado de Laranjeiras.

“O senhor está com cara de quem não tem crônica”, ele disse, sem levantar os olhos do jornal. Confessei. Ele balançou a cabeça com a compaixão de quem já viu muita coisa. Depois, como quem não quer nada, começou a falar da dona Iracema, do quarto andar, que todo dia às cinco desce de para buscar uma carta que não chega. Que espera essa carta desde que o filho foi embora para Manaus, há nove anos. Que o filho telefona, manda mensagem, manda até vídeo, mas ela continua descendo às cinco, porque, segundo ela, telefone é conversa, e carta é prova.

“Ela me pergunta todo dia se chegou alguma coisa”, disse seu Josué. “Eu digo que hoje não. E ela agradece como se eu tivesse dado uma notícia boa.” Olhou o relógio. Eram cinco para as cinco. A porta do elevador se abriu, e dona Iracema saiu, de cor de cereja, bolsa no braço, e atravessou o hall com a pressa contida das pessoas que já sabem a resposta.

Subi, sentei e escrevi sem parar. Às cinco e cinquenta e oito, mandei a crônica para a Às seis e vinte, minha editora ligou para dizer que era a melhor coisa que eu tinha escrito em anos. Agradeci com a humildade que convém, isto é, nenhuma.

Só não contei a ela o resto. Que, ao sair do prédio para comemorar, encontrei seu Josué colocando um envelope na caixa do quarto andar: envelope de papel, com de verdade e dos Correios de Manaus. “O menino mandou”, disse ele, com um sorriso. “Eu liguei pra ele semana passada e disse que a mãe precisava de prova.” Depois me olhou de lado: “Pode escrever essa também. Mas a próxima vai custar um café.”

Paguei o café. Foi a primeira vez em anos que uma crônica me custou tão pouco e valeu tanto, e desconfio que o verdadeiro cronista deste prédio trabalha na

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the columnist see from his window?

2. Why does Dona Iracema keep waiting for a letter?

3. How did the editor react to the column?

4. Who arranged for Dona Iracema's son to send a real letter?