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Short story

A Dívida do Onceiro

A former jaguar hunter, now a guide in the Pantanal, takes a famous photographer to find a scarred old jaguar.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o onceiro · jaguar hunter
  • o rastro · track, footprint
  • o esturro · jaguar's roar
  • a cabaça · gourd
  • a diária · daily rate
  • arrepender-se · to regret
  • a ariranha · giant otter
  • o tuiuiú · jabiru stork, symbol of the Pantanal
  • o corixo · seasonal channel in the Pantanal
  • a barranca · steep riverbank
  • a fiscalização · enforcement, inspection
  • a legenda · caption

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Até os anos oitenta, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, era profissão. Os fazendeiros pagavam bem a quem livrasse o rebanho das onças, e Seu Nhô, filho e neto de foi o melhor de todos. Matou, segundo contas que ele mesmo não gosta de fazer, mais de sessenta. Conhecia o de uma onça-pintada na lama como quem reconhece a letra de um parente, sabia imitar o dela soprando numa e era capaz de esperar um dia inteiro em cima de uma árvore, sem beber água, sem espantar mosquito.

Em 2004, Seu Nhô tinha setenta e quatro anos e trabalhava numa pousada à beira do rio Paraguai, levando turistas de lancha para fotografar as mesmas onças que antes caçava. A caça foi proibida, os fazendeiros descobriram que uma onça viva rende mais em de hotel do que cem bezerros, e os que sobraram viraram guias. Seu Nhô diz que não se de nada, porque naquele tempo era assim. Mas fala disso olhando para o lado.

Em setembro daquele ano, no auge da seca, chegou à pousada um fotógrafo de São Paulo chamado Henrique Kato, famoso, com lentes do tamanho de um braço e um único objetivo: a Marcada. Era uma fêmea velha, enorme, conhecida na região inteira por uma cicatriz funda que lhe atravessava o ombro esquerdo. Fazia anos que ninguém conseguia uma boa foto dela. Henrique ofereceu ao guia o triplo da

Durante quatro dias, saíram de madrugada e voltaram à noite. Viram jacarés às centenas, duas onças jovens brincando numa praia de areia. Henrique fotografava tudo com uma impaciência educada, como quem prova os aperitivos esperando o prato principal. Seu Nhô quase não falava. Lia as margens: um uma capivara morta, um bando de macacos gritando no alto de uma figueira.

No quinto dia, no fim da tarde, ele desligou o motor no meio de um estreito e fez sinal de silêncio. Esperaram vinte minutos. Então a Marcada saiu do capim, devagar, com aquela indiferença que só conhecem os bichos que nunca tiveram medo, e se deitou na a dez metros da lancha, olhando para eles. Henrique fotografou até encher o cartão de memória. Seu Nhô não tirou os olhos do ombro dela.

Na volta, já de noite, o fotógrafo perguntou de onde vinha a cicatriz. Seu Nhô demorou tanto a responder que Henrique achou que ele não tinha ouvido. “Fui eu”, disse por fim. Tinha sido em 1990, pouco antes de a chegar de verdade àquele canto do Pantanal. Um fazendeiro tinha perdido doze bezerros em dois meses e pagou adiantado. Seu Nhô esperou a onça durante três noites. Na quarta, ela apareceu, ainda jovem, e ele atirou.

“Errei”, disse. “Quer dizer: acertei o ombro. Ela fugiu sangrando pro mato. Fiquei uma semana atrás dela e não achei. Pensei que tinha morrido em algum canto, sofrendo, que é a pior morte que um pode dar. Foi a última onça que eu cacei. Não por causa da lei. Por causa dela.” Anos depois, já como guia, viu a Marcada pela primeira vez, viva, com a cicatriz no ombro. “Fiquei sentado no barco chorando que nem menino. O turista daquele dia achou que era emoção com a natureza.”

Henrique ficou calado o resto do caminho. Na pousada, mostrou ao guia a melhor foto do dia, na tela da câmera: a Marcada deitada, a cicatriz bem visível, olhando direto para a lente. Disse que aquela foto ia para uma exposição em São Paulo, depois para um livro, e que gostaria de contar a história verdadeira da cicatriz na com o nome dele, se ele deixasse.

Seu Nhô pensou um pouco. Depois balançou a cabeça. “Conta a história, mas não põe meu nome. Põe só que foi um Henrique perguntou por quê. “Porque não fui só eu”, respondeu o velho, apagando a luz da varanda. “Fomos muitos. E ela não perdoou nenhum de nós. Só se acostumou.”

Comprehension check

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1. Why did the jaguar hunters become guides?

2. What was special about the jaguar called Marcada?

3. Why did Seu Nhô stop hunting jaguars?

4. Why doesn't Seu Nhô want his name in the caption?