Short story
A Faixa de 1950
A sign painter in Madureira paints a victory banner before the 1950 World Cup final at the Maracanã.
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Words to know (12)
- o letreiro · hand-painted store sign
- o açougue · butcher shop
- o bonde · streetcar
- o empate · tie (game)
- a faixa · banner
- o lampião · oil lamp
- o miolo · inside, middle part
- desabar · to collapse
- o ponta · winger (soccer)
- vaiar · to boo
- flagrar · to catch in the act
- desbotado · faded
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Meu pai pintava Na Madureira dos anos cinquenta, não havia padaria, barbearia ou que não tivesse o nome escrito pela mão dele, em letras gordas e coloridas, com uma sombra preta que fazia as palavras parecerem saltar da parede. Ele dizia que letra boa é a que se lê de dentro do andando. Eu tinha nove anos e achava que meu pai era o homem mais importante do Rio de Janeiro.
Em julho de 1950, o Brasil inteiro tinha certeza. O Maracanã acabara de ser inaugurado, o maior estádio do mundo, e a seleção vinha massacrando os adversários: sete na Suécia, seis na Espanha. Na última partida, contra o Uruguai, bastava um Os jornais já tinham as manchetes da vitória prontas; os políticos já tinham discursado; e o Seu Almir, dono do bar da esquina, encomendou ao meu pai uma de seis metros: BRASIL CAMPEÃO DO MUNDO 1950.
Meu pai passou três noites pintando aquela no quintal, à luz de um e me deixou encher de amarelo o das letras. Era o trabalho mais bonito da vida dele, e ele sabia. No domingo, dia 16, saímos cedo, ele, eu e mais vinte homens da rua, com a enrolada no ombro como um tapete. Entramos no estádio às onze da manhã para um jogo que começava às três. Havia, dizem, duzentas mil pessoas. Eu só me lembro de joelhos, cotovelos e de um cheiro de suor e laranja.
O Brasil fez um a zero logo no começo do segundo tempo, e eu achei que o estádio fosse Meu pai me levantou nos ombros. Depois o Uruguai empatou, e o barulho diminuiu um pouco, como um rádio cujo volume alguém fosse baixando. Faltando onze minutos para o fim, o uruguaio, Ghiggia, correu pela direita, chutou quase sem ângulo, e a bola entrou entre o goleiro e a trave.
Nunca mais ouvi um silêncio como aquele. Duzentas mil pessoas e nenhum som, só o vento batendo nas bandeiras. Um homem ao nosso lado chorava sem barulho, com o chapéu na mão, como num enterro. Quando o juiz apitou o fim, ninguém Ninguém fez nada. As pessoas foram saindo devagar, de cabeça baixa, como se tivessem sido fazendo alguma coisa vergonhosa.
Meu pai enrolou a sem dizer uma palavra. No trem de volta, lotado e mudo, ela ia apertada debaixo do braço dele. Em casa, ele a guardou no alto do armário, embrulhada num lençol velho, e nunca mais tocou no assunto. Nos anos seguintes, sempre que alguém falava em Copa do Mundo, meu pai saía da sala. Minha mãe dizia que ele não tinha perdido um jogo: tinha perdido a fé em letra pintada antes da hora.
Oito anos depois, em 29 de junho de 1958, a rua inteira se juntou em volta do rádio do bar do Seu Almir para ouvir a final, lá na Suécia. Meu pai ficou em casa. Eu, com dezessete anos, corria entre o bar e a nossa porta para lhe dar o placar, e ele fingia não se importar. Quando o Brasil fez o quinto gol e o locutor gritou que éramos campeões do mundo, entrei em casa correndo e não o encontrei.
Ele estava no quintal. Tinha tirado a do armário e a estendido sobre o cimento. Ajoelhado, com um pincel fino e uma lata de tinta, cobria com cuidado o zero de 1950 e desenhava por cima um oito gordo, com sombra e tudo. Fazia aquilo devagar, com a língua entre os dentes, como fazia todos os Não chorava. Ou talvez chorasse; já estava escurecendo.
Naquela noite, a foi pendurada na frente do bar, entre dois postes, e a rua dançou embaixo dela até de madrugada. Quem chegasse perto via que o oito tinha sido pintado em cima de outra coisa. Ninguém comentou. Hoje ela está comigo, dobrada numa gaveta. Às vezes minha neta pergunta por que tem um número escondido debaixo do outro. Eu digo que é para lembrar que toda vitória é pintada por cima de uma derrota, e ela revira os olhos, como deve fazer quem tem catorze anos.
Comprehension check
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1. What did Brazil need in the last match against Uruguay?
2. How did the crowd react to the final whistle?
3. What did the narrator's father do with the banner after 1950?
4. What did the father do when Brazil won in 1958?