Short story
O Mouro de Pirenópolis
A man who has proudly played a losing Moor in Pirenópolis's Cavalhadas for thirty-two years learns his son will ride for the Christians.
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Words to know (12)
- a lantejoula · sequin
- encenar · to stage, act out
- a embaixada · embassy; here, the formal challenge speech
- a garrucha de festim · old pistol firing blanks
- a arquibancada · stands, bleachers
- deserdar · to disinherit
- tomar partido · to take sides
- o mascarado · masked reveler
- a rendição · surrender
- bufar · to snort
- gaguejar · to stammer
- a sela · saddle
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Há trinta e dois anos Seu Tonico perde a mesma guerra. Todo ano, na Festa do Divino, ele veste a túnica vermelha bordada de monta seu cavalo enfeitado de fitas e entra no campo das Cavalhadas de Pirenópolis, em Goiás, como cavaleiro mouro. Durante três dias, doze mouros e doze cristãos as batalhas de Carlos Magno: correm, se enfrentam, trocam disparam de E todo ano, no fim, os mouros são derrotados, se convertem e são batizados diante de milhares de pessoas que conhecem o final desde o século dezenove.
Seu Tonico não se importa. Pelo contrário: considera a derrota a parte mais nobre do ofício. “Qualquer um ganha”, costuma dizer no bar da Rua Direita, com uma cerveja suando na mesa. “Perder bonito é que é difícil. O cristão só tem que esperar a vitória. O mouro é que tem que fazer o povo acreditar que ele pode ganhar.” Ele leva isso a sério: treina o cavalo o ano inteiro, ensaia as falas diante do espelho e, durante a festa, olha para os cristãos com um ódio teatral que já fez criança chorar na
O problema começou em março, quando saiu a lista dos cavaleiros daquele ano. O filho de Seu Tonico, Rodrigo, vinte e seis anos, engenheiro agrônomo, tinha sido escolhido pela primeira vez. Do lado cristão. Azul. A notícia correu a cidade em meia hora, e em uma hora já havia apostas no bar sobre quanto tempo Seu Tonico levaria para o filho.
“Eu não escolhi, pai, foi a comissão”, explicou Rodrigo no almoço de domingo, enquanto a mãe servia o empadão goiano em silêncio, para não tomar Seu Tonico mastigou devagar. “Sei.” Foi tudo o que disse naquele dia e em boa parte dos seguintes. Durante dois meses, pai e filho treinaram no mesmo pasto, em horários diferentes, e se cumprimentavam com a cortesia gelada de dois embaixadores de países em guerra, o que, de certa forma, eram.
No domingo da festa, o campo estava lotado. Os corriam entre o público com suas máscaras de boi e de onça, assustando os turistas e pedindo dinheiro com voz fina. Quando os cavaleiros entraram, os vermelhos de um lado, os azuis do outro, a percebeu logo onde estava o verdadeiro espetáculo. Seu Tonico nunca tinha montado tão bem. Rodrigo nunca tinha parecido tão nervoso.
No segundo dia, chegou a hora das em que um cavaleiro de cada lado avança, em nome do seu rei, para exigir a do outro. A fala do embaixador mouro costumava caber a outro cavaleiro, mas naquele ano Seu Tonico, depois de muita negociação nos bastidores, conseguiu o papel. E a fala do embaixador cristão, por coincidência ou por crueldade da comissão, coube a Rodrigo.
Os dois se aproximaram a galope e pararam frente a frente, os cavalos Seu Tonico declamou os versos antigos com uma voz que fez a cidade inteira se calar, cheia de desprezo, de ameaça, de fúria magnífica. Rodrigo começou a responder, e parou. Tinha esquecido o verso. Ficou ali, de lança na mão, vermelho por baixo do capacete, enquanto dez mil pessoas esperavam.
Foi então que Seu Tonico, o mouro, o inimigo, se inclinou ligeiramente na e soprou, quase sem mover os lábios, a primeira palavra da fala cristã. Rodrigo agarrou a palavra como quem agarra uma corda e terminou a sem errar mais nada. Quase ninguém percebeu. Os poucos que perceberam, conta-se até hoje na Rua Direita, foram os que mais aplaudiram.
No terceiro dia, como manda a história, os mouros perderam, se converteram e foram batizados. Seu Tonico se ajoelhou no campo para o batismo, com o filho de pé a seu lado, e pela primeira vez em trinta e dois anos chorou diante do público. Disse depois, no bar, que tinha sido poeira no olho. À noite, Rodrigo foi procurar a comissão. Queria saber se, no ano seguinte, poderia trocar de lado. “Quero ser mouro”, explicou. “Ganhar é muito sem graça.”
Comprehension check
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1. Why does Seu Tonico think the Moor's role is the noblest?
2. How did father and son behave in the two months before the festival?
3. What happened during the embassies?
4. What does Rodrigo ask the commission at the end?