Short story
O Mar Não Tem Portão
When a gated estate cuts the trail from his beach near Paraty, an old caiçara fisherman plans his answer in silence.
Tap a dotted word for its meaning.
Words to know (12)
- o caiçara · traditional fisherman of the southeast coast
- o guapuruvu · tall Atlantic Forest tree used for canoes
- a enxó · adze
- cavar · to hollow out, dig
- a guarita · guard booth
- a cancela · barrier gate
- volumoso · bulky
- tramar · to scheme, plot
- o padroeiro · patron saint
- a traineira · fishing boat, small trawler
- desembarcar · to go ashore
- a convivência · living together, coexistence
Select any text to highlight it, or a word to translate it or save it to your flashcards.
Seu Benedito nasceu na Praia do Cação, num canto da costa de Paraty onde a Mata Atlântica desce o morro e mete os pés no mar. Ali o avô dele pescou, o pai pescou, e ele também, numa canoa de um tronco só, de que o pai com e machado quando ele tinha doze anos. explicava ele aos turistas, é isso: gente que tem um pé na roça e outro na canoa, e que não sabe direito onde termina a terra e começa a água.
Durante setenta anos, o caminho até a vila foi uma trilha no mato: duas horas a pé, com o peixe salgado nas costas para vender, ou uma hora de canoa, se o mar deixasse. Depois chegou a estrada, e com a estrada chegou o condomínio. Primeiro vieram os topógrafos, depois as máquinas, depois as casas de vidro dos paulistas e dos cariocas, com piscina de frente para o mar, como se o mar não bastasse. Por último veio o portão, com e bem em cima da trilha.
“É propriedade particular, seu Benedito”, explicou o segurança, um rapaz de Angra que, no fundo, tinha vergonha do que estava dizendo. “Morador da comunidade só passa com autorização.” Benedito, que passava por ali antes de o pai daquele rapaz nascer, pediu a autorização por escrito. Levou três semanas para chegar e veio com horários: das sete às dezoito, de segunda a sábado, sem carga Canoa, segundo o regulamento, era carga
A comunidade se reuniu na escolinha. Os mais novos queriam fechar a estrada, chamar a televisão, quebrar a O advogado de uma ONG de Paraty disse que a lei garantia o acesso às praias, que o processo ia ser ganho, mas que podia levar dez anos. Benedito, que tinha oitenta e um, fez as contas em silêncio. Depois disse que ia pensar e foi para casa, deixando a reunião sem saber se ele estava desistindo ou alguma coisa.
Estava Dia 29 de junho é dia de São Pedro, dos pescadores, e todo ano a imagem do santo saía da capelinha da praia numa procissão a pé até a vila, pela trilha. Naquele ano, como a trilha tinha portão, os moradores do condomínio supuseram que não haveria procissão. Alguns até comentaram, aliviados, que finalmente teriam um feriado tranquilo.
Às sete da manhã do dia 29, o primeiro morador que abriu a janela de vidro viu o mar coberto de canoas. Eram quarenta, cinquenta, talvez mais: canoas de botes de alumínio, enfeitadas com bandeirinhas, até um caiaque de turista emprestado. Tinham vindo de todas as praias da baía, de comunidades que Benedito visitara, uma por uma, durante o mês inteiro. Na frente de todas, numa canoa de um pau só pintada de azul, ia o santo, e ao lado do santo, remando devagar, ia Benedito.
A procissão parou bem diante da praia do condomínio, a vinte metros da areia. Ninguém não era preciso. Os pescadores cantaram, soltaram fogos, rezaram em voz alta, e a festa, que costumava durar uma hora, durou a manhã inteira. Os moradores saíram para as varandas, primeiro irritados, depois curiosos, depois, alguns, filmando com o celular. À tarde, os vídeos já estavam nos jornais do Rio, com manchetes que o advogado da ONG não teria conseguido em dez anos de processo.
Duas semanas depois, a administração do condomínio anunciou, num comunicado cheio de palavras como “diálogo” e que a trilha estaria aberta à comunidade tradicional sem restrição de horário. Canoa deixou de ser carga Benedito leu o papel na porta da escolinha, dobrou-o em quatro e guardou no bolso da camisa.
“Eles fecharam a terra”, disse depois, consertando uma rede na areia, para quem quisesse ouvir. “Está certo, terra se fecha. Mas o mar, meu filho, o mar não tem portão. Isso o sabe desde que nasce. Quem chega de carro é que demora a aprender.”
Comprehension check
0/4 answered
1. What rule made it impossible for Benedito to use the trail with his canoe?
2. Why didn't Benedito want to rely only on the lawyer's plan?
3. What did the residents expect on São Pedro's day?
4. What finally made the estate open the trail?