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Short story

O Babaçu Livre

Women who crack babassu nuts in Maranhão fight a rancher who has fenced off and poisoned their palm grove.

Tap a dotted word for its meaning.

Words to know (12)
  • o babaçual · grove of babassu palms
  • o porrete · wooden club
  • a lâmina · blade
  • a amêndoa · kernel, nut
  • a pontaria · aim
  • o arame farpado · barbed wire
  • a quebradeira · woman who cracks babassu nuts
  • o vereador · town councilor
  • o desempate · tie-break
  • a alvenaria · brick, masonry
  • pigarrear · to clear one's throat
  • o rojão · firework rocket

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Em São Raimundo das Palmeiras, no Maranhão, as mulheres acordam antes do sol e saem para o com um machado, um e um cesto de palha nas costas. Recolhem os cocos caídos debaixo das palmeiras, sentam-se no chão, prendem o machado entre as pernas com o fio para cima e, com o batem o coco contra a até que ele se abra e entregue as É um trabalho de força e de feito há gerações, e Dona Chica, que começou aos sete anos, tem os dedos marcados por sessenta anos dessa conversa entre o e o machado.

Do babaçu se aproveita tudo, dizem elas: a vira óleo e sabão, a casca vira carvão, a palha cobre as casas. Só não se aproveita a palmeira derrubada. E era isso que vinha acontecendo. Um fazendeiro, o doutor Arlindo Mesquita, comprou as terras do outro lado do riacho, cercou tudo com e começou a envenenar as palmeiras para plantar capim para o gado. As que havia setenta anos entravam ali como quem entra no quintal da avó, passaram a ser recebidas por um vaqueiro armado.

“Coco caído no chão não é de ninguém”, disse Dona Chica numa reunião da associação. “Palmeira não foi plantada por fazendeiro. Foi Deus que plantou, e nós que cuidamos.” As mais novas aplaudiram; as mais velhas, que já tinham visto outras brigas, ficaram caladas. Foi a filha de Dona Chica, Elisângela, que tinha estudado em São Luís e trabalhava no sindicato, quem trouxe a ideia: outros municípios tinham aprovado uma lei do Babaçu Livre, que garantia às o acesso às palmeiras mesmo em terra particular e proibia derrubá-las. Por que não ali?

Por um motivo simples, explicou alguém: o presidente da Câmara de era Arnaldo Mesquita, irmão do doutor Arlindo. Dos nove quatro deviam favores à família. Ainda assim, as redigiram o projeto com a ajuda de Elisângela, coletaram mil e duzentas assinaturas, de porta em porta, de feira em feira, e o entregaram na Câmara num dia de chuva: quarenta mulheres de lenço na cabeça e cesto nas costas, cantando.

A votação foi marcada para uma terça-feira de novembro. O plenário, que costumava ter mais ventiladores que público, estava lotado de Os falavam, um por um, com a eloquência de quem sabe que está sendo ouvido e ainda não sabe de que lado vai ficar. Nas cadeiras, fazia-se a conta em voz baixa: quatro a favor, quatro contra, e o voto de seria do presidente. De Arnaldo Mesquita.

Foi nesse momento que a porta do plenário se abriu e entrou, devagar, apoiada numa bengala e no braço de uma neta, uma senhora de noventa anos, miúda, de lenço branco na cabeça. As mais velhas a reconheceram antes de todo mundo e se levantaram. Era Dona Brígida, que tinha quebrado coco naquele por cinquenta anos, antes de os filhos estudarem, enriquecerem e mandarem construir para ela uma casa de com antena parabólica. Os filhos eram Arlindo e Arnaldo Mesquita.

Dona Brígida não pediu a palavra. Sentou-se na primeira fila, ao lado de Dona Chica, abriu a bolsa e tirou dela um coco babaçu e um pequeno, gasto, escuro de tanto uso. Pôs os dois no colo. Não disse nada. Olhou para o filho na mesa da presidência, por cima dos óculos, do jeito que as mães olham quando já disseram tudo o que tinham para dizer muitos anos antes.

Arnaldo Mesquita ajeitou o microfone, olhou para o teto, para os papéis, para o irmão sentado no fundo da sala. Depois votou a favor. A lei passou por cinco a quatro. O plenário explodiu em palmas e cantoria, e alguém, até hoje ninguém sabe quem, soltou um na praça. Dona Chica, chorando, perguntou a Dona Brígida por que ela tinha vindo.

A velha deu de ombros. “Eu criei esses dois meninos com o dinheiro do coco”, disse. “Um deles esqueceu. O outro, pelo jeito, ainda lembrava. Só precisava de alguém que olhasse pra ele.” Depois guardou o na bolsa, com cuidado, como quem guarda um documento.

Comprehension check

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1. What was the rancher doing to the palm grove?

2. What would the Babaçu Livre law do?

3. Who was Dona Brígida?

4. How did Dona Brígida influence the vote?