Short story
A Mão na Farinha
During a village's cassava flour making in the Recôncavo, the gossips watch a widow and a widower very closely.
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Words to know (12)
- a farinhada · communal making of cassava flour
- revezar-se · to take turns
- raspar · to scrape, peel
- o ralador · grater
- o balaio · large straw basket
- a forneira · woman who roasts the flour at the oven
- o jegue · donkey (Northeast)
- a comadre · neighborhood gossip, close female friend
- finado · late, deceased
- o lombo · back (of an animal)
- o atravessador · middleman who buys produce
- o cochicho · whisper
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Em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo baiano, a é muito mais que fazer farinha. É assembleia, tribunal, correio e rádio comunitária. Durante três dias, as famílias do povoado se na casa de farinha de Dona Lindaura: os homens arrancam a mandioca, as mulheres as raízes sentadas em roda, os meninos giram a roda do e no meio de tudo isso, entre um e outro, a vida de todo mundo é ralada, espremida e torrada com o mesmo cuidado.
Naquele junho, o assunto era um só: Dona Lindaura e Seu Bastião. Ela, viúva havia oito anos, sessenta e oito de idade, a melhor da região, capaz de mexer a farinha no forno por seis horas sem reclamar do calor. Ele, viúvo havia cinco, setenta e dois, dono de um chamado Presidente e de um sorriso que, segundo as “já tinha tirado muita moça do sério nos tempos de antigamente”. Os dois tinham sido vistos voltando juntos da missa. Duas vezes. Na segunda, ele carregava a sombrinha dela.
“Isso não é nada”, dizia Dona Zefa, mandioca com uma faca que parecia ter cem anos. “Sombrinha é educação.” “Educação nada”, respondia Dona Detinha. “Bastião nunca carregou nem a sombrinha da mulher dele, coitada.” As outras riam baixinho. Ninguém tinha coragem de perguntar nada a Dona Lindaura, que não era mulher de responder pergunta: era mulher de olhar, e o olhar dela queimava mais que o forno.
Seu Bastião, por sua vez, fazia questão de parecer indiferente. Passava pela casa de farinha com a mandioca no do Presidente e cumprimentava todo mundo com o chapéu, inclusive a exatamente como cumprimentava as outras. Às vezes demorava um pouco mais, para tomar um café; às vezes demorava bem menos. As registravam tudo, de cabeça, com a precisão de um cartório.
O escândalo aconteceu no último dia, na hora mais quente da tarde. A farinha tinha acabado de sair do forno, fina, branquinha, e Dona Lindaura peneirava o primeiro com os braços enfarinhados até os cotovelos. Seu Bastião entrou para avisar que o caminhão do tinha chegado e saiu logo, sem demorar nada, como quem não tem o que esconder. Usava uma camisa azul-marinho, de domingo, recém-passada.
Foi Dona Detinha quem viu primeiro. Depois Dona Zefa. Depois a casa de farinha inteira, que parou de de ralar e de peneirar ao mesmo tempo, num silêncio que nem missa de sétimo dia consegue. Nas costas da camisa azul de Seu Bastião, bem no meio, perfeitamente desenhada em farinha branca, havia uma mão. Uma mão pequena, de dedos finos, de mulher. E só havia uma mulher na casa com os braços brancos até os cotovelos.
Seu Bastião, sem saber de nada, foi atravessando o terreiro em direção ao caminhão, e atrás dele foram os olhares, depois os depois as risadas, que se espalharam pelo povoado mais depressa que fogo em capim seco. Quando ele chegou ao caminhão, até o motorista já estava rindo. Foi o próprio motorista quem lhe deu a notícia, apontando para as costas dele. Na casa de farinha, todas as cabeças se viraram para Dona Lindaura. Ela continuou peneirando, devagar, como se nada tivesse acontecido.
Depois de um minuto inteiro, bateu as mãos uma na outra, levantando uma nuvem branca, e olhou para as uma por uma. “Pois é minha mesmo”, disse. “E se alguém aqui tiver alguma coisa pra dizer, que diga agora, que no casamento eu não quero conversa.”
O casamento foi em outubro, na igreja matriz, com bolo de aipim e licor de jenipapo. Dona Zefa e Dona Detinha foram madrinhas e choraram mais que a noiva. Seu Bastião casou com a mesma camisa azul-marinho, que se recusara a lavar desde junho e que era, segundo ele, a única prova documental da sua felicidade. Na do ano seguinte, ninguém tinha mais o que comentar. Durou pouco: logo chegou a notícia de que o padre novo andava tomando café demais na casa da professora.
Comprehension check
0/4 answered
1. How does the narrator describe the farinhada?
2. Why does Dona Detinha think the umbrella means something?
3. What did the whole flour house see on Bastião's shirt?
4. What did Bastião do with the blue shirt?