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Short story

A Geada Negra

A woman remembers the July night in 1975 when a black frost destroyed her family's coffee farm in northern Paraná.

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Words to know (12)
  • a geada · frost
  • a fresta · crack, gap
  • o sítio · small farm
  • o colono · farm laborer on a plantation
  • o alqueire · old land measure (about 2.4 hectares)
  • o cafeeiro · coffee plant
  • o graveto · twig
  • a fileira · row
  • executar uma dívida · to foreclose on a debt
  • teimoso · stubborn
  • o toco · stump
  • o moedor · grinder

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Na noite de 17 para 18 de julho de 1975, meu pai não dormiu. Eu tinha dez anos e acordei de madrugada com frio, um frio que eu nunca tinha sentido, que entrava pelas da janela de madeira e parecia morder. Fui até a cozinha e o encontrei de pé na porta dos fundos, de casaco, olhando o cafezal no escuro. A respiração dele saía em fumaça. Perguntei o que estava acontecendo. Ele não respondeu. Pôs a mão na minha cabeça, que era o carinho mais comprido que ele sabia fazer, e me mandou voltar para a cama.

Nosso ficava perto de Assaí, no norte do Paraná, numa terra roxa tão fértil que, dizia meu avô, quem plantasse um prego colheria um martelo. Ele tinha chegado do Japão em 1933, trabalhado como em fazenda de café paulista, juntado dinheiro durante quinze anos e comprado, enfim, quarenta de mato. Derrubou o mato com as próprias mãos, plantou café, criou cinco filhos. Quando ele morreu, meu pai herdou o e os cafezais, que naquele inverno estavam carregados como nunca, prometendo a melhor colheita em dez anos.

Ao amanhecer, o mundo estava diferente. Não era a branca, bonita, que às vezes cobria o pasto e derretia antes do almoço. Era outra coisa. As folhas dos até onde a vista alcançava, tinham ficado pretas, como se alguém tivesse passado fogo nelas durante a noite. Quando o sol bateu, começaram a cair. Em poucos dias, nossos trinta mil pés de café eram escuros espetados na terra vermelha. Os vizinhos chamaram aquilo de negra. No Paraná inteiro, numa noite só, morreram centenas de milhões de pés de café.

Meu pai não chorou. Não gritou. Na manhã do dia 18, sentou-se à mesa às seis horas, como sempre, e fez questão de que todos nós nos sentássemos também. Minha mãe serviu arroz, ovo e café, o café do ano anterior, que agora era o último. Comemos em silêncio. Depois ele foi para a roça e passou o dia inteiro andando entre as tocando os galhos um por um, como um médico que examina doentes que já sabe que não vai salvar.

Nos meses seguintes, o norte do Paraná se esvaziou. Famílias inteiras de que viviam do café, puseram as coisas num caminhão e foram para São Paulo, para Rondônia, para o Mato Grosso. Os bancos as dívidas. As fazendas grandes trocaram o café por soja e trigo, que se plantavam com máquina e pouca gente. Meu tio vendeu a parte dele e foi abrir uma pastelaria em São Paulo, no bairro da Liberdade. Na despedida, disse ao meu pai que ele estava sendo que o café tinha acabado, que o futuro era a cidade.

Meu pai ficou. Arrancou os mortos com a ajuda de dois vizinhos e plantou soja, como todo mundo, porque não havia escolha. Aprendeu a lidar com trator, com adubo químico, com contrato de cooperativa. Nunca falou daquilo como uma derrota; falava como quem fala de uma mudança de tempo. Só uma coisa ele fez diferente. Entre os arrancados, achou um pé de café, um só, perto do poço, que tinha brotado de novo a partir da raiz. Não arrancou. Cercou com bambu, adubou, regou na seca.

Esse pé de café está lá até hoje, mais de cinquenta anos depois, ao lado da casa onde agora mora meu irmão. É uma árvore torta, velha, que dá pouca coisa. Todo ano, em junho, meu pai colhia os grãos à mão, sozinho, secava num pano no quintal, torrava numa panela de ferro e moía no que tinha sido do meu avô. Dava café para umas duas semanas. Ele bebia uma xícara por dia, de manhã, em pé na porta dos fundos, olhando a soja.

Uma vez, já adulta, perguntei por que ele guardava aquela árvore que não servia para nada. Ele pensou um tempo, com aquela lentidão que eu levei anos para entender que não era frieza. “Pra lembrar”, disse. Perguntei de quê. Da Ele balançou a cabeça. “Não. Da eu me lembro sozinho. É pra lembrar que ela não matou tudo.”

Meu pai morreu em 2019. No velório, meu irmão serviu às visitas um café ralo, de pó comprado no mercado. Eu não reclamei. Mas em junho do ano seguinte, sem que ninguém me pedisse, viajei de Curitiba até Assaí, colhi os grãos daquele pé torto, sequei num pano, torrei na panela de ferro, moí no do meu avô. Tomei a primeira xícara em pé, na porta dos fundos, olhando a soja. Estava amargo. Estava certo.

Comprehension check

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1. What made the frost of 1975 different from an ordinary frost?

2. What did the father do on the morning after the frost?

3. What did the narrator's uncle think of her father's decision?

4. Why did the father keep the single coffee tree?