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Short story

O Soldado da Borracha

Clearing out her grandmother's room in Fortaleza, a woman finds a sealed letter sent from a rubber estate in Acre in 1944.

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Words to know (12)
  • enferrujado · rusty
  • o seringal · rubber estate
  • prometer mundos e fundos · to promise the moon
  • a borracha · rubber
  • alistar-se · to sign up, enlist
  • desfazer-se · to fall apart
  • caprichado · neat, done with care
  • o barracão · estate store where rubber was traded
  • a seringueira · rubber tree
  • defumar · to smoke, cure with smoke
  • trabalhadeiro · hard-working
  • intacto · untouched, intact

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Quando a avó morreu, em Fortaleza, coube a Natália esvaziar o quarto. Entre lençóis bordados que nunca tinham sido usados e santinhos de missa de sétimo dia, encontrou uma lata de biscoito e, dentro dela, um envelope amarelado, fechado, sem selo, com uma letra difícil: Para Francisca Alves, Quixadá, Ceará. De Joaquim, Bom Destino, Acre. A data no canto era de 1944. Francisca era a avó. De Joaquim, Natália nunca tinha ouvido falar.

A mãe dela, quando soube, ficou muito tempo calada ao telefone. Depois contou o pouco que sabia. Em 1943, no meio da guerra, o governo de Getúlio Vargas tinha prometido e a quem fosse para a Amazônia extrair para os Aliados. Chamavam esses homens de soldados da Cartazes coloridos mostravam um sertanejo sorridente, de chapéu, a caminho de uma floresta cheia de dinheiro. No Ceará, que mais uma vez morria de seca, milhares se “Teu avô não foi”, disse a mãe. “Teu avô foi o segundo marido dela. O primeiro noivo é que foi.”

Natália abriu o envelope com uma faca de manteiga, com medo de que o papel se Eram duas folhas escritas a lápis dos dois lados, numa letra que começava e ia ficando torta, como se a mão tivesse cansado ou a luz tivesse acabado.

Minha Chiquinha, faz onze meses que eu cheguei e é a terceira carta que te escrevo, mas as outras eu não sei se chegaram, que aqui o correio é o barco do patrão e o patrão lê tudo. Esta eu vou guardar até achar alguém de confiança. Não é como disseram em Fortaleza. Não tem dinheiro na floresta, Chiquinha. Tem dívida. Quando a gente chega, o patrão do já cobra a passagem, a rede, o facão, a espingarda, a farinha, tudo pelo preço que ele quer, e a gente começa a trabalhar devendo. Cada quilo de que eu levo pro vale menos que a lata de sardinha que eu compro lá.

Eu acordo às três da manhã pra cortar as uma estrada de cento e vinte árvores no meio da mata, e volto de tarde pra colher o leite e a na fumaça, que queima os olhos. Já tive malária duas vezes. Um companheiro de Quixeramobim morreu de febre na semana passada, e enterraram ele sem caixão na beira do igarapé. O patrão anotou a dívida dele no caderno e disse que ia cobrar da família.

Não estou contando isso pra te deixar triste. Estou contando pra tu saber a verdade, caso alguém te diga outra coisa. E pra te dizer o mais importante: não me espera. Eu devo mais do que vou ganhar em dez anos, e o patrão não deixa ninguém sair devendo. Tu é moça bonita e e merece casar com um homem que esteja perto. Eu vou ficar contente, Chiquinha, juro por Deus, se souber que tu está feliz. Teu Joaquim, que não esquece.

Natália leu duas vezes. Depois pesquisou. Descobriu que, dos milhares de nordestinos mandados para os quase metade nunca voltou: morreram de malária, de febre, de fome, de onça, ou ficaram presos às dívidas até que ninguém mais se lembrasse deles. Descobriu também que, décadas depois, os sobreviventes tinham conseguido uma pensão do governo, e que alguns ainda estavam vivos nos anos dois mil, velhinhos, em Rio Branco, contando a história a quem quisesse ouvir.

O que nunca descobriu foi o destino de Joaquim. Nos arquivos que conseguiu consultar havia dezenas de Joaquins, nenhum com sobrenome. O que pesava mais, porém, era outra coisa: a carta estava fechada. A avó nunca a tinha lido. Alguém de confiança, anos depois, a trouxera até Quixadá, e Francisca, já casada, já mãe, guardou o envelope numa lata de biscoito durante setenta anos.

Natália pensou muito nisso. Talvez a avó tivesse medo do que estava escrito. Talvez soubesse, sem ler, exatamente o que estava escrito. Ou talvez, e foi nessa hipótese que Natália acabou acreditando, enquanto o envelope estivesse fechado Joaquim continuava a caminho, e nunca seria preciso decidir se ela tinha esperado ou não. Pôs a carta de volta no envelope e o envelope na lata. Antes, porém, escreveu a lápis, no verso: lida em 2023, pela sua neta. Achou que a avó, de algum jeito, ia gostar de saber que ele tinha dito a verdade.

Comprehension check

0/4 answered

1. Who was Joaquim?

2. What does Joaquim say about money on the rubber estate?

3. What is the most important thing Joaquim tells Francisca?

4. What surprised Natália most about the letter?