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Short story

A voz de Guarulhos

For twelve years, a traveling salesman has heard his ex-wife's recorded voice in airports all over Brazil, until the recordings are about to be replaced.

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Words to know (12)
  • o representante comercial · sales representative
  • a válvula · valve
  • a locutora · announcer, voice artist
  • o sotaque · accent
  • o saguão · concourse, hall
  • encolher · to shrink, tighten
  • tomar providências · to take action
  • prestativo · helpful
  • os pertences · belongings
  • a criança de colo · infant in arms
  • sonolento · sleepy
  • rouco · hoarse

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Durante doze anos, Paulo ouviu a voz da ex-mulher pelo menos duas vezes por semana, em lugares onde ela nunca esteve. comercial de uma fábrica de ele passava a vida entre Guarulhos, Recife, Porto Alegre e Manaus, e em todos esses aeroportos, e em mais uns trinta, quem anunciava as últimas chamadas, os portões alterados e os voos cancelados era Denise. Não a Denise de casa, claro. A Denise profissional, de voz calma e sem que tinha gravado aquelas mensagens num estúdio da Vila Madalena seis meses antes de os dois se separarem.

Nos primeiros anos, aquilo foi uma tortura. Ele estava na fila do embarque, tranquilo, pensando em e de repente a voz dela enchia o “Senhores passageiros, atenção.” Ele sentia o estômago Era a mesma voz que tinha dito “acho que acabou” na cozinha do apartamento de Pinheiros, numa noite de domingo, com uma calma que ele nunca perdoou. Chegou a pensar em mudar de profissão. Chegou a pensar em ir de ônibus para Recife. Não fez nem uma coisa nem outra, porque era um homem de hábitos, e o principal hábito dele era sofrer sem tomar

Com o tempo, porém, a voz mudou de sentido. Ou ele mudou. Começou a reparar que aquela Denise dos aeroportos não era a que discutia com ele sobre dinheiro, nem a que chorava, nem a que batia a porta. Era uma Denise serena, que só queria que todo mundo chegasse bem ao destino. “Pedimos a gentileza de manter seus sob vigilância.” Paulo, que nunca fora gentil com os próprios passou a vigiar a mala com uma dedicação quase conjugal.

Passou, também, a conversar com ela. Baixinho, no portão de embarque, para estranheza de quem estava ao lado. A voz anunciava que o voo para Manaus estava atrasado, e ele respondia, entre dentes: “Você também sempre se atrasava.” A voz pedia que os passageiros com crianças de se apresentassem primeiro, e ele se lembrava de que nunca tiveram filhos, de que esse tinha sido um dos assuntos que eles não souberam conversar. Era um casamento estranho, aquele: só ela falava, e ele, pela primeira vez, ouvia.

Numa terça-feira de outubro, em Guarulhos, Paulo leu no jornal que a administradora dos aeroportos ia substituir as gravações antigas por uma voz sintética, gerada por computador, “mais moderna, mais versátil e capaz de anunciar em quatro idiomas”. A troca seria feita no fim do mês. A reportagem ouvia um especialista que garantia que ninguém notaria a diferença. Paulo dobrou o jornal com cuidado, como se fosse um documento importante, e percebeu que estava com as mãos frias.

No último dia, ele fez uma coisa que não fazia havia doze anos: foi ao aeroporto sem ter voo marcado. Sentou-se num banco do terminal dois, comprou um café que não bebeu e ficou ouvindo. A voz de Denise anunciou um embarque para Belém, um portão alterado para Curitiba, a última chamada para um certo senhor Ferreira, que, onde quer que estivesse, ia perder o avião. À meia-noite, sem aviso, a voz mudou. Uma mulher que não existia anunciou o primeiro voo da madrugada. Era agradável, correta, perfeita. Não tinha ninguém dentro.

Paulo pegou o celular. O número de Denise ainda estava lá, com o nome antigo, “Dê”, que ele nunca tivera coragem de mudar. Ligou. Tocou cinco vezes. Quando ela atendeu, com a voz de quem acordou de repente, ele quase não a reconheceu: era uma voz cansada, mais grave, cheia de anos que ele não tinha visto passar. “Paulo? Aconteceu alguma coisa?”

Ele pensou em dizer muitas coisas. Que tinha passado doze anos ouvindo a voz dela nos alto-falantes do Brasil inteiro. Que tinha aprendido a ouvir tarde demais. Que tinham trocado a voz dela por uma máquina e que ele, de algum modo, se sentia viúvo de uma pessoa viva. Disse só: “Desculpa a hora. Eu estou no aeroporto. Acho que eu precisava ouvir você ao vivo.” Do outro lado houve um silêncio comprido, e depois uma risada baixa, que ele também não conhecia e que não constava em nenhuma gravação. “Então ouve”, ela disse. “Mas desta vez você vai ter que responder.”

Comprehension check

0/4 answered

1. Why did Paulo hear Denise's voice so often?

2. How did the recorded voice come to feel different to him over time?

3. What was the new synthetic voice like?

4. What does Denise tell him at the end?