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Short story

As instruções de Helena

A widower in São Paulo who has always disliked plants insists on keeping his late wife's apartment jungle alive.

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Words to know (12)
  • a chantagem · blackmail
  • regar · to water (plants)
  • a samambaia · fern
  • a jabuticabeira · jabuticaba tree (fruit grows on the trunk)
  • dar conta · to cope, manage
  • o regador · watering can
  • apodrecer · to rot
  • o manjericão · basil
  • murchar · to wilt
  • a sogra · mother-in-law
  • ralo · thin, sparse
  • a teimosia · stubbornness

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Ernesto nunca gostou de plantas. Achava que eram bichos que tinham desistido de andar e, por isso, viviam de ou você as ou elas morrem, e a culpa é sua. Helena, ao contrário, tinha transformado os sessenta metros quadrados do apartamento em Pinheiros numa pequena floresta disciplinada. Havia na sala, uma num vaso enorme na varanda, orquídeas no banheiro, temperos na janela da cozinha e um ficus no corredor que tinha mais personalidade que muitos parentes.

Quando ela morreu, em agosto, as plantas ficaram. Os filhos se ofereceram para levá-las, cada um uma parte, como se divide uma herança. Ernesto recusou com uma veemência que surpreendeu a todos, inclusive a ele mesmo. Disse que ia dar Não ia, evidentemente. Não sabia nem onde ficava o Mas desmontar a floresta seria desmontar Helena um pouco mais, e já tinham levado embora o suficiente: as roupas, os óculos, o cheiro do travesseiro, que sumiu em três semanas, apesar de todos os esforços dele.

Na primeira semana, tudo todos os dias, com fervor de recém-convertido. As orquídeas começaram a Na segunda, assustado, não nada. O com um ar ofendido que lembrava, para seu desgosto, a Na terceira, desesperado, ergueu o vaso da maior para ver se havia algum furo, algum segredo, alguma pista. Havia. Colado no fundo do vaso, dentro de um saquinho plástico, um papel dobrado com a letra redonda de Helena.

duas vezes por semana, segunda e quinta. Ela gosta de sombra e de conversa. Pode falar do Palmeiras, ela não liga.” Ernesto leu aquilo de pé, no meio da sala, com o vaso nos braços, e ficou um tempo enorme sem saber se ria ou se sentava no chão. Sentou no chão. Depois, um por um, levantou todos os vasos do apartamento.

Havia um bilhete em cada um. Helena, que tinha passado o último ano entre hospitais e sabia muito bem o que estava por vir, preparara um manual completo, vaso por vaso, com a precisão de engenheira que ela fingia não ter. As orquídeas: “Uma vez por semana, pouca água, e pelo amor de Deus não deixe o pratinho cheio.” O “Todo dia, mas só um pouco. É dramático, igual a você.” O ficus do corredor: “Esse se cuida sozinho. Respeite.” A “Se ela der fruta, chame os netos. Não coma tudo sozinho, Ernesto, eu estou vendo.”

Ele passou a seguir as instruções com rigor de militar. Comprou uma agenda só para isso. Falava com a às segundas e quintas, primeiro com vergonha, depois com naturalidade, e descobriu que o Palmeiras, em voz alta, para uma planta, era um assunto muito mais suportável. As orquídeas se recuperaram. O perdoou. Os filhos, nas visitas, trocavam olhares que ele fingia não ver: o pai, que nunca tinha cuidado nem de um cacto, agora conversava com o mato.

Em março, a deu fruta. Ernesto chamou os netos, como mandava o bilhete, e ficou olhando os três meninos arrancarem as frutinhas pretas do tronco e enfiarem na boca, sujos até as orelhas. Foi a primeira tarde, desde agosto, em que a casa fez barulho de casa.

Restava um vaso que ele nunca tinha levantado: o da pequena, no canto da varanda, feia, meio amarelada, que Helena sem entusiasmo. À noite, depois que todos foram embora, ele a ergueu. Embaixo, o último bilhete, mais curto que os outros, com a letra já um pouco trêmula: “Essa aqui pode deixar morrer. Eu nunca gostei dela, foi presente da sua irmã. Mas você não precisa ficar sozinho, nem com as plantas, nem sem elas. Te amo. H.”

Ernesto riu alto, sozinho, na varanda escura. Depois encheu o e a feia. Não por obediência. Por que era, afinal, a outra coisa que os dois sempre tiveram em comum.

Comprehension check

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1. Why did Ernesto refuse to let his children take the plants?

2. Where did he find Helena's instructions?

3. What did the note on the jabuticaba tree tell him?

4. Why does Ernesto water the ugly fern at the end?