Short story
O homem dos guarda-chuvas
An office worker on Avenida Paulista spends two years trying to work out how one umbrella seller always knows when it is about to rain.
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Words to know (12)
- o cogumelo · mushroom
- a marquise · canopy over a storefront
- a vareta · umbrella rib
- do avesso · inside out
- o temporal · storm, downpour
- a planilha · spreadsheet
- soterrar · to bury
- o ambulante · street vendor
- ofegante · out of breath
- trincado · cracked
- a rajada · gust
- encharcado · soaked
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Todo paulistano conhece o fenômeno, mas ninguém o estuda com seriedade. Basta o céu da Paulista escurecer, basta a primeira gota grossa estalar na calçada, e eles surgem: os vendedores de guarda-chuva. Aparecem do nada, como depois da chuva, com a diferença de que chegam antes dela. Brotam nas saídas do metrô, nas esquinas, debaixo das oferecendo por vinte reais aparelhos de vida curta e frágeis, que viram do no primeiro vento e morrem, heroicos, numa lixeira da Consolação.
Eu trabalhava no décimo nono andar de um prédio espelhado perto do Masp e, durante dois anos, observei um deles com uma atenção que meu chefe chamaria de improdutiva. Era um senhor baixo, de bigode grisalho e boné de time do interior, que se posicionava na esquina da Augusta com uma bolsa de lona. A rua ainda estava seca, o céu às vezes nem parecia ameaçador, e ele já estava lá, abrindo o primeiro guarda-chuva com calma de mágico. Dez, quinze minutos depois, invariavelmente, desabava o
Comecei a anotar. Registrei, numa que escondia do departamento financeiro, oitenta e sete aparições do homem e oitenta e sete chuvas. Nenhum erro. A previsão oficial, no mesmo período, errou vinte e três vezes. Meu aplicativo errou trinta e uma. O homem do bigode não errava nunca. Passei a não sair do escritório sem olhar para baixo, para a esquina. Se ele estava lá, eu levava casaco. Se não estava, podia ir de camisa.
Desenvolvi teorias. A primeira era antropológica: ele seria herdeiro de algum saber antigo, daqueles que leem o céu pela cor das nuvens e pelo voo dos pássaros, um conhecimento que a cidade tinha debaixo do asfalto. A segunda era conspiratória: haveria uma rede secreta de com acesso a satélites. A terceira, que me ocorreu numa madrugada de insônia, era mística, e prefiro não registrá-la por escrito.
Numa quinta-feira de fevereiro, com o céu limpo, um azul de cartão-postal, olhei para baixo e vi o homem abrindo a bolsa. Não aguentei. Desci os dezenove andares, atravessei a avenida e parei diante dele, sem saber como começar. Acabei comprando um guarda-chuva preto, por vinte e cinco reais, porque o preço, percebi, subia junto com a umidade. Depois perguntei, com toda a franqueza possível, como ele sabia.
Ele me olhou de cima a baixo, como quem avalia se o freguês aguenta a verdade. Disse que tinha sido técnico de meteorologia durante trinta anos, na estação do Mirante de Santana, e que conhecia o céu de São Paulo como conhecia a própria mulher: não pelo que ele dizia, mas pelo que escondia. Falou de frente fria, de umidade relativa, de brisa marítima subindo a serra no fim da tarde. Eu ouvia aquilo com a devoção de um discípulo. Minha teoria antropológica estava errada, mas a verdade era ainda mais bonita: era a ciência, humilde, de boné, na esquina.
Então ele tirou do bolso um celular velho, com a tela e me mostrou um aplicativo de radar. “Mas hoje em dia eu uso isto aqui”, disse. “É de graça.” Fiquei olhando a tela, desolado. Era o mesmo aplicativo que eu tinha no meu celular, o mesmo que errava trinta e uma vezes. “O aplicativo erra”, concordou ele, tranquilo. “Mas o aplicativo só diz a hora da chuva. Quem diz o preço sou eu. E quem fica na esquina também. O aplicativo não fica.” Nesse momento, a primeira gota estalou no meu ombro.
Abri o guarda-chuva novo, que virou do na segunda O homem já estava atendendo outros clientes, cobrando trinta. Voltei ao escritório e apaguei a Não por decepção. Entendi que tinha passado dois anos querendo descobrir um segredo, e o segredo era apenas este: ficar na esquina, olhar para cima e não ter medo de se molhar. Desde então, quando o céu escurece, eu ainda olho para baixo. Ele quase sempre está lá. E, quando não está, já não sei se é o tempo que vai firmar ou se é ele que, como todo mundo, às vezes erra.
Comprehension check
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1. What did the narrator's spreadsheet show?
2. What had the vendor's job been?
3. What disappointed the narrator at the end of the conversation?
4. According to the vendor, what does he offer that the app doesn't?