Short story
O sobrado da Tijuca
With a bad toothache, a woman goes to a dental clinic in Rio and finds it is the house she grew up in and left at nineteen.
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Words to know (12)
- o convênio · health insurance plan
- latejar · to throb
- o sobrado · two-story town house
- a mangueira · mango tree
- a rachadura · crack
- o jacarandá · rosewood
- o bebedouro · water cooler
- o lustre · chandelier
- o gancho · hook
- a broca · dentist's drill
- o batente · window frame
- dormente · numb
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Marta só reparou no endereço da clínica quando o aplicativo do já tinha marcado a consulta: rua Conde de Bonfim, Tijuca. Ela olhou a tela por um tempo, com a dor de dente no lado esquerdo do rosto, e pensou que devia ser coincidência. Não era. Quando o táxi parou, ali estava o onde ela tinha morado dos quatro aos dezenove anos, pintado de um cinza clínico, com uma placa de acrílico na fachada: Odonto Sorriso Pleno. A do quintal tinha sido cortada. No lugar dela, três vagas de estacionamento.
Pensou em ir embora. A dor decidiu por ela. Subiu os quatro degraus de mármore, os mesmos, com a mesma em forma de raio no terceiro, que o pai prometeu consertar durante quinze anos, e entrou na sala de espera, que era, constatou com um aperto no estômago, a antiga sala de jantar. Onde ficava a mesa de agora havia um e uma televisão sem som passando um programa de culinária.
A recepcionista pediu o documento e a carteirinha do Marta entregou, sentou e ficou olhando o teto. O não estava mais lá, mas o continuava, pintado de branco junto com o resto, como uma palavra riscada numa carta que ainda se deixa adivinhar. Foi daquele que o irmão dela, aos sete anos, tentou se pendurar imitando o Tarzan, no Natal de 1975, e era daquele dia a cicatriz na sobrancelha dele, que ele exibia nas festas como medalha de guerra. O irmão morava em Curitiba agora, e os dois se falavam pouco, por nenhum motivo em particular, que é o pior dos motivos.
“Dona Marta?” A dentista era jovem, simpática, de tranças. Levou-a pelo corredor, e Marta contou mentalmente as portas: o banheiro, o quarto dos pais, o quarto do irmão. Entraram na última, à direita. O quarto dela. A janela era a mesma e dava para o mesmo muro do vizinho, onde agora havia o grafite de uma onça. A cadeira do dentista estava exatamente onde ficava a cama, com a cabeceira encostada na mesma parede.
Marta deitou. A dentista acendeu a luz sobre o rosto dela, e por um instante a luz não era a luz da clínica: era a lanterna que ela escondia debaixo do lençol para ler romances proibidos depois das dez, enquanto ouvia a mãe na cozinha, lavando a louça e cantando desafinado. Era a luz do poste da rua entrando pela persiana na noite em que ela decidiu, aos dezenove anos, que ia embora daquela casa, daquela família, daquela vida pequena, e que nunca mais ia voltar.
“Abre bem, por favor.” Ela abriu. A começou a zumbir. E, deitada no exato lugar onde tinha chorado por todos os amores errados da adolescência, Marta descobriu que não sentia raiva da casa, nem saudade exatamente, mas uma ternura constrangida, como quando a gente reencontra alguém com quem foi injusta. A casa não tinha sido pequena. Ela é que tinha pressa.
“Pronto”, disse a dentista. “Era só um canal inflamado. Vai doer um pouco hoje, depois passa.” Marta agradeceu, levantou-se e, antes de sair, perguntou, sem saber direito por quê, se podia olhar pela janela um instante. A dentista estranhou, mas deixou. Marta olhou o muro, a onça, o pedaço de céu entre os prédios, e encostou a mão no onde ainda se percebia, debaixo da tinta, um risco à altura do ombro de uma criança e outro, mais acima, que marcava a altura de uma moça.
Na calçada, com o rosto ligou para o irmão em Curitiba. Ele atendeu assustado, porque fazia meses que ela não ligava sem motivo. “Não aconteceu nada”, ela disse. “Eu só fui ao dentista.” E, como a anestesia deixava a boca torta e as palavras moles, demorou um pouco para conseguir explicar onde.
Comprehension check
0/4 answered
1. What had replaced the mango tree in the yard?
2. Where was the dentist's chair?
3. What does Marta realize about the house while lying in the chair?
4. Why does Marta call her brother?