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Short story

Prezada Lígia

A widower of seventy-eight in São Paulo emails the woman he dated for one summer in Rio in 1968, and she writes back.

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Words to know (11)
  • a ousadia · boldness, nerve
  • a bromélia · bromeliad (plant)
  • péssimo · terrible, very bad
  • o feito · feat
  • a gaveta · drawer
  • covarde · coward(ly)
  • a exigência · high standards, demands
  • enviuvar · to be widowed
  • o carteiro · mail carrier
  • o rancor · resentment
  • ditar · to dictate

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De Sérgio Barreto para Lígia Menezes, 3 de maio. Prezada Lígia, perdoe a deste e-mail, que escrevo com dois dedos e muita hesitação. Meu neto me ensinou a procurar pessoas nessa internet, e eu, que não procuro ninguém há cinquenta anos, procurei você. Encontrei uma foto sua na página de uma associação de amigos do Jardim Botânico, ao lado de uma premiada. Reconheci o sorriso antes do nome. Não sei se você se lembra de mim. Fomos namorados no verão de 1968, em Copacabana, durante exatos quarenta e um dias, até eu voltar para São Paulo prometendo escrever toda semana. Escrevo agora. Estou um pouco atrasado. Seu, Sérgio.

De Lígia Menezes para Sérgio Barreto, 9 de maio. Sérgio. Lembro, sim. Você usava um chapéu panamá que não combinava com nada, tinha medo de onda e recitava poesia ruim com uma convicção comovente. Não foram quarenta e um dias, foram quarenta e dois; você sempre foi de conta. A não era minha, era da vizinha, eu só estava na foto porque gosto de aparecer. Escreva mais. Escreva com os dois dedos mesmo. L.

De Sérgio Barreto para Lígia Menezes, 16 de maio. Querida Lígia (permita que eu promova o “prezada”), sua resposta me deixou uma semana inteira de bom humor, o que, na minha idade e com o meu joelho, é um médico. Fui engenheiro de pontes durante quarenta anos. Casei com a Teresa em 1972, uma mulher boa, paciente, que morreu há seis anos e a quem eu nunca falei de você, não por segredo, mas porque não sabia em que guardar. Tivemos duas filhas e tenho três netos, um dos quais me ensinou a usar este aparelho e agora se arrepende. Nunca escrevi aquelas cartas de 1968. Comecei várias. Achava todas pequenas demais para o que tinha sido aquele verão. Fui por excesso de que é a pior covardia, porque parece virtude.

De Lígia Menezes para Sérgio Barreto, 20 de maio. Engenheiro de pontes. Logo você, que tinha medo de atravessar a avenida Atlântica sem segurar a minha mão. A Teresa teve sorte, e você também. Eu me casei duas vezes, a segunda melhor que a primeira, e da segunda, o que é injusto, porque o primeiro está vivíssimo em Niterói. Não se desculpe pelas cartas. Eu também não teria respondido; estava ocupada sendo jovem. Conte mais das pontes. Me conte uma de que você se orgulhe. L.

Durante o mês de junho, os e-mails se multiplicaram. Os dele, longos, cheios de parênteses, de datas e de pontes; os dela, curtos, precisos, sempre com uma correção: o nome de uma rua, a cor de um vestido, o sabor de um sorvete que ele tinha confundido. Sérgio começou a esperar as respostas como, aos vinte anos, esperava o As filhas notaram que ele andava de camisa passada. O neto notou que o avô tinha aprendido, sozinho, a mandar emojis, e que só usava um: o de uma onda.

De Sérgio Barreto para Lígia Menezes, 2 de julho. Lígia, tomo coragem, que é coisa que na minha idade se compra em doses pequenas. Gostaria de ir ao Rio. Não para reviver nada; nós dois sabemos que o passado não aceita visitas. Mas para tomar um café com você, de frente para o mar, e verificar pessoalmente se você ainda me corrige com aquele sorriso. Se a ideia for absurda, diga, e eu volto aos meus dois dedos e às minhas pontes sem nenhum.

A resposta demorou nove dias, e não era de Lígia. De Bianca Menezes para Sérgio Barreto, 11 de julho. Seu Sérgio, aqui é a Bianca, neta da Lígia. Desculpe a demora; eu não sabia como escrever isto. A vó tem Alzheimer há quatro anos. Quem digita as respostas sou eu. Mas não inventei uma palavra: toda tarde eu leio para ela as suas mensagens, e ela o que quer dizer. Tem dias em que ela não sabe o meu nome nem se já almoçou. Mas quando eu leio o senhor, ela lembra do chapéu, das ondas, dos quarenta e dois dias e da cor exata do vestido. O médico diz que é comum: a memória mais antiga é a última a ir embora. Eu acho que não é só isso.

Contei a ela o seu convite. Ela riu e disse uma frase que eu anotei para não errar: “Diga a ele que venha logo, antes que eu esqueça que ele está atrasado.” Ela pode não reconhecer o senhor. Pode reconhecer e esquecer meia hora depois. Eu entendo se o senhor preferir guardar as coisas como estão.

De Sérgio Barreto para Bianca Menezes, 11 de julho, vinte minutos depois. Prezada Bianca, obrigado pela verdade, que é o presente mais caro que se pode dar a um velho. Chego sábado, no voo das dez. Ela não precisa me reconhecer; eu reconheço por nós dois. Vou de chapéu.

Comprehension check

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1. How did Sérgio find Lígia?

2. Why did Sérgio never write the letters he promised in 1968?

3. Who was actually typing Lígia's replies?

4. What does Sérgio mean by "eu reconheço por nós dois"?