Short story
Cartas do Planalto
Between 1958 and 1960 a carpenter from Bahia writes to his wife while helping to build Brasília.
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Words to know (12)
- o planalto · plateau, highlands
- o formigueiro · anthill
- a forma · wooden mold for concrete
- o holofote · floodlight
- a promessa · vow made to a saint
- a laje · concrete slab
- a cuia · bowl (literally a gourd)
- o andaime · scaffolding
- o candango · worker who built Brasília
- pregar · to nail
- o lote · plot of land
- desmentir · to contradict, call a liar
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Núcleo Bandeirante, 12 de setembro de 1958. Minha querida Marinalva, cheguei inteiro, graças a Deus e ao motorista do caminhão, que só dormiu duas vezes no volante. Aqui não tem nada, Nalva. Quer dizer: tem tudo, mas tudo ainda é poeira. Um enorme, vermelho, com umas árvores tortas que parecem desenhadas por criança, e no meio disso milhares de homens cavando, carregando, gritando, que nem formiga quando alguém pisa no Dizem que daqui a dois anos isso vai ser a capital do Brasil. Eu olho em volta e não sei se rio ou se rezo.
Arrumei serviço de carpinteiro numa construtora, fazendo de madeira para o concreto. A gente trabalha de dia e de noite, em turnos, debaixo de O salário é bom, melhor que três safras de sisal em Jacobina. Já mandei o primeiro dinheiro pelo correio. Compra sapato pros meninos e não deixa tua mãe gastar tudo com pra santo.
3 de março de 1959. Nalva, ontem o Presidente veio na obra. Juscelino mesmo, de chapéu, rindo, apertando a mão de todo mundo como se estivesse em campanha. Apertou a minha. Disse: “Vocês estão fazendo história.” Eu queria responder que a gente estava fazendo era mas fiquei calado, com a minha mão suja de cimento na mão dele. O prédio em que eu trabalho vai ser o Congresso: duas torres e duas uma virada pra cima e outra pra baixo. Não me pergunta pra que serve uma virada pra baixo. Os engenheiros dizem que é arte.
21 de setembro de 1959. Desculpa a demora pra escrever. Teve um acidente no e morreram dois rapazes, um do Crato e outro de Montes Claros. Ninguém sabe direito o nome completo deles; aqui todo mundo é chamado pela cidade de onde veio. Eu sou o Jacobina. Fiquei pensando que, se eu caísse, você ia receber a notícia de um homem chamado Jacobina, e talvez nem soubesse que era eu. Por isso escrevo meu nome inteiro embaixo, todas as vezes, mesmo você sabendo.
22 de abril de 1960. Nalva, ontem foi a inauguração. Teve missa, banda, fogos, discurso, gente de terno vinda do Rio de avião. Nós, os ficamos do lado de fora da cerca, olhando. Um soldado mandou a gente se afastar, que ali era lugar de autoridade. Eu fiquei olhando as duas do Congresso, branquinhas, e pensei: aquela ali, a de baixo, fui eu que Ninguém lá dentro sabe. Mas eu sei.
Agora vem a parte que eu tenho medo de escrever. Muitos colegas estão voltando pro Norte. Eu não quero voltar. A construtora vai continuar, tem muita obra ainda, e me ofereceram um numa cidade nova, Taguatinga, longe do Plano Piloto, que é onde os vão morar, porque a capital que a gente fez não é pra gente. Quero que você venha com os meninos. Sei que é pedir muito: largar tua mãe, a igreja, a feira. Mas aqui eles vão crescer numa cidade que nem existia quando eles nasceram. Isso não é pouco. Teu, Edvaldo Ferreira dos Santos.
Jacobina, 15 de maio de 1960. Edvaldo, recebi tua carta e passei três dias sem responder, não por dúvida, mas porque tive que vender a máquina de costura, as galinhas e o rádio, e minha mãe chorou em cada venda. A gente chega no fim de junho. Vai esperar a gente na rodoviária e leva um chapéu, que os meninos querem ver como é o chapéu do homem que construiu a capital. Eu disse a eles que você apertou a mão do Presidente. Não me Tua Marinalva, que sabe teu nome inteiro sem precisar ler.
Comprehension check
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1. How does Edvaldo describe Brasília when he arrives?
2. Why does Edvaldo always sign his full name?
3. Where were the workers during the inauguration?
4. What is Marinalva's answer to Edvaldo's request?