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Short story

Elogio da garoa

A São Paulo columnist remembers his grandfather's love of the city's fine drizzle, long gone, until one Tuesday morning.

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Words to know (12)
  • a garoa · fine drizzle
  • o paletó · suit jacket
  • umedecer · to dampen
  • reparar em · to notice
  • desabar · to pour down; to collapse
  • o cobrador · debt collector
  • alagar · to flood
  • a névoa · mist
  • a auréola · halo
  • a armadura · armor
  • a banca de jornal · newsstand
  • o granizo · hail

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Meu avô dizia que São Paulo era a única cidade do mundo onde a chuva pedia licença. Ele tinha chegado do interior em 1951, de trem, com uma mala de papelão e um emprestado, e a primeira coisa que a capital lhe ofereceu, na saída da Estação da Luz, foi a uma chuva tão fina que não molhava, apenas a gente, como um conselho dado em voz baixa. Ele contava isso sempre do mesmo jeito, e sempre terminava com a mesma frase: “Foi aí que eu entendi que aqui ninguém ia gritar comigo.”

Estava enganado, é claro. São Paulo gritou com ele durante quarenta anos: na fábrica do Brás, no ônibus lotado, no escritório de contabilidade onde ele terminou a vida profissional como chefe de seção. Mas ele perdoava tudo à cidade por causa da Dizia que uma cidade que sabe chover devagar ainda tem salvação.

A sumiu. Os meteorologistas explicam com palavras compridas: ilha de calor, impermeabilização do solo, desmatamento. Eu entendo as palavras, mas prefiro a versão do meu avô, que no fim da vida dizia que a tinha ido embora ofendida, porque ninguém mais tinha tempo de nela. Hoje São Paulo não chove: A tempestade das cinco da tarde chega como um a marginal, derruba árvore em cima de carro e vai embora sem pedir desculpa. Depois vem a seca, e a gente passa três meses respirando a cidade em vez de ar.

Na terça passada, porém, aconteceu uma coisa. Acordei às seis, abri a janela do apartamento, em Perdizes, e a cidade estava coberta por uma luminosa, quase líquida. Demorei a entender. Estendi a mão para fora e senti, na palma, não gotas, mas uma espécie de respiração fria. Era verdadeira, de fotografia antiga, daquelas que deixam os postes com e transformam os prédios da avenida Sumaré em silhuetas de papel.

Desci sem guarda-chuva, porque não se enfrenta com guarda-chuva; seria como usar para receber um beijo. Na rua, as pessoas andavam mais devagar. Juro. O motoboy esperou o sinal abrir. O homem da de jornal estava parado na calçada, de braços cruzados, olhando para cima com cara de quem reconhece um parente. Na padaria da esquina, a moça do caixa comentou, sem que ninguém perguntasse: “Parece a São Paulo da minha mãe.”

Foi na fila do pão que uma menina de uns seis anos puxou a manga da mãe e perguntou, apontando a porta: “Mãe, que chuva é essa que não cai?” A mãe, que devia ter uns trinta anos e nunca tinha visto aquilo direito, hesitou. Ninguém na fila soube explicar com precisão. Foi o padeiro, um senhor de bigode branco, quem respondeu, sem tirar os olhos da máquina de café: “Isso é minha filha. É como a cidade era quando tinha paciência.”

A durou até as nove. Depois o sol saiu, forte, indiferente, e às cinco da tarde caiu a tempestade de sempre, com e alagamento na Pompeia. Os jornais da noite não falaram da Não era notícia. Notícia é o que estraga; o que consola não vende.

Mas eu fiquei pensando na menina. Em algum lugar desta cidade, agora, existe uma pessoa de seis anos que sabe que há chuvas que não caem. Ela vai crescer, vai pegar ônibus lotado, vai trabalhar em algum escritório onde alguém vai gritar com ela. E talvez, num dia ruim, ela se lembre de que a cidade, uma vez, numa terça-feira, pediu licença. Meu avô diria que isso é salvação suficiente. Eu, que herdei dele a mania de exagerar, acho que é quase uma promessa.

Comprehension check

0/4 answered

1. What did the grandfather understand when he first felt the garoa?

2. According to the grandfather, why did the garoa disappear?

3. Why did the narrator go out without an umbrella?

4. Who explained to the girl what garoa was?