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Short story

Domingo no Aterro

Watching Sunday life in Rio's Aterro do Flamengo, a columnist becomes fascinated by an old man who flies a kite alone near the airport.

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Words to know (12)
  • a caixa de isopor · cooler
  • a ressaca · hangover
  • o alongamento · stretching
  • o apito · whistle
  • a pipa · kite
  • o carretel · reel, spool
  • empinar · to fly (a kite)
  • semicerrado · half-closed
  • o puxão · tug
  • arrebentar · to snap
  • o estalo · snap, crack
  • enxugar · to wipe dry

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Aos domingos, o Aterro do Flamengo fecha as pistas para os carros e se oferece ao Rio inteiro como uma sala de visitas. Quem mora por perto desce com bicicleta, cachorro, cadeira de praia, caixa de criança e nessa ordem de importância. Eu desço com um livro que não leio. Sento num banco perto do Morro da Viúva, abro o livro na página quarenta e três, onde ele está aberto há dois anos, e passo a manhã olhando os outros, que é a forma mais barata de turismo que a cidade oferece.

Há o casal que ensaia tango ao lado da ciclovia, sem música, contando os passos em voz alta. Há o grupo de senhoras que faz com uma professora de e paciência infinita. Há os meninos do futebol, que transformam duas mochilas em gol e qualquer discussão em tribunal. E havia, até o mês passado, o homem da

Ele aparecia por volta das dez: um senhor alto, magro, de boné e camisa social para dentro da bermuda, carregando uma azul e branca e um enorme de linha. Não era menino, não tinha menino com ele, e ainda assim a com uma seriedade de cerimônia, os olhos corrigindo a linha com mínimos, como quem conversa com alguém que está muito longe. Os meninos do futebol riam dele. As senhoras do achavam bonito. Eu achava as duas coisas e, como bom carioca, não fazia nada a respeito.

O que me intrigava era a direção. O homem sempre se posicionava de frente para a baía, com o aeroporto Santos Dumont à esquerda, e mantinha a numa altura exata, nem alta nem baixa, enquanto os aviões passavam atrás dela, baixinhos, descendo para a pista. Às vezes, quando um avião se aproximava, ele dava um firme e a se deslocava para o lado, como se abrisse caminho. Depois voltava ao lugar.

Num domingo de vento bom, perdi a vergonha e perguntei. Ele não tirou os olhos da Disse que tinha sido controlador de voo durante trinta e quatro anos, ali mesmo, na torre do Santos Dumont. Que tinha posto no chão, pelas contas dele, uns quatrocentos mil aviões, sem nunca ter tocado em nenhum. “Aposentado não tem torre”, disse. “Aí eu arranjei esta. É o único avião que eu ainda controlo.”

Contou que a mulher achava aquilo uma bobagem, que os filhos achavam um sintoma, que o médico achava ótimo para a pressão. Contou que sentia falta do rádio, das vozes dos pilotos, do “boa tarde, torre”, e principalmente da responsabilidade, que era uma coisa que pesava mas que, quando tiraram dele, deixou um vazio mais pesado ainda. “A gente passa a vida querendo largar o peso”, disse. “Depois descobre que era o peso que segurava a gente no chão.”

Foi nessa hora que a linha Um seco, quase inaudível, e a azul e branca se soltou, subiu de repente, livre, e começou a se afastar por cima da baía, rumo a Niterói, girando devagar, cada vez menor. Os meninos do futebol pararam o jogo para olhar. As senhoras abaixaram os braços. Eu me levantei, constrangido, como se a culpa fosse minha por ter puxado conversa.

O homem olhou a ir embora com o vazio na mão. E então fez uma coisa que eu não esperava: riu. Um riso alto, de menino, que assustou um pombo. “Olha só”, disse, os olhos. “Trinta e quatro anos mandando todo mundo pra onde eu queria. Finalmente um foi pra onde quis.” Guardou o me cumprimentou com o boné e foi embora pela ciclovia.

Não voltou mais. Sinto falta dele, aos domingos, mais do que seria razoável. Mas toda vez que um avião passa baixinho sobre o Aterro, eu procuro, sem querer, uma azul e branca abrindo caminho. E continuo na página quarenta e três.

Comprehension check

0/4 answered

1. What does the narrator do in the Aterro on Sundays?

2. What had the kite man's job been?

3. What did he say about the weight of responsibility?

4. How did the man react when the kite line snapped?