Short story
O amigo secreto
In a São Paulo accounting firm, nobody wants to draw the cold senior partner in the office Secret Santa, so a secret market in names is born.
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Words to know (12)
- o sigilo · secrecy
- a confraternização · office party
- o sócio-fundador · founding partner
- acolher · to welcome, make someone feel at home
- o boleto · payment slip, bill
- o estagiário · intern
- o plantão · duty shift
- a carona · ride
- a cotação · (market) quotation
- a véspera · eve, day before
- pigarrear · to clear one's throat
- os ativos · assets
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Na Contábil Horizonte, um escritório de contabilidade de dezoito funcionários no quinto andar de um prédio sem graça da Vila Olímpia, o amigo secreto de fim de ano era levado mais a sério que o imposto de renda. As regras, afixadas na copa desde 2009 por dona Célia, do RH, eram claras: valor máximo de cinquenta reais, sorteio na primeira segunda-feira de dezembro, revelação na festa do dia vinte e absoluto, sob pena de exclusão da Dona Célia escrevia com letra maiúscula.
O problema, naquele ano, tinha nome: doutor Hermes, o Hermes era um homem cordial do jeito que um termômetro é cordial: informava, não Ninguém sabia do que ele gostava. Em onze anos, só tinha sido visto rindo uma vez, quando a Receita Federal mudou um prazo a favor do escritório. Tirar o nome dele no sorteio era, na linguagem da copa, “pegar o
Quem pegou o foi Thiago, o mais novo, que abriu o papelzinho no banheiro, empalideceu e foi direto à mesa de Priscila, do fiscal. Priscila, que tinha tirado a Joyce, da recepção, aceitou a troca desde que Thiago cobrisse o dela no dia vinte e três. Mas Priscila não tinha a menor intenção de ficar com o doutor Hermes. Em menos de uma hora, ela o tinha passado ao Ronaldo, do departamento pessoal, em troca de uma vaga na garagem até março.
Assim nasceu, sem que dona Célia soubesse, o primeiro mercado secundário de amigos secretos da história da contabilidade paulista. O nome do doutor Hermes passou de mão em mão como uma moeda que ninguém aceita. Valia cada vez menos e exigia compensações cada vez maiores: uma um almoço, uma planilha pronta, a promessa de não comentar certo episódio da festa do ano anterior. Houve até quem oferecesse dinheiro. Recusaram: seria falta de ética. Troca, não. Troca era tradição.
No meio da segunda semana, já ninguém sabia quem tinha tirado quem. Os papeizinhos tinham sido trocados, retrocados, fotografados, rasgados e reescritos à mão. Formou-se um grupo de mensagens clandestino chamado “Bolsa de Valores”, com diárias. Joyce, da recepção, criou uma planilha para controlar as transações, com cores e fórmulas, e foi a primeira vez em três anos que alguém no escritório elogiou sinceramente o trabalho de outra pessoa.
Na da festa, por um encadeamento de trocas que nenhum dos participantes soube reconstruir depois, o papelzinho com o nome do doutor Hermes chegou à única pessoa que não participava do mercado, por não saber que ele existia: o próprio doutor Hermes. Recebeu-o de Ronaldo num envelope, junto com um relatório, e o abriu sozinho, na sala dele, à noite. Leu o próprio nome. Ficou um longo tempo olhando o papel.
Na festa, num restaurante da rua Funchal, quando chegou a vez do doutor Hermes, o escritório inteiro prendeu a respiração. Ele se levantou, e começou a descrever o amigo secreto, como mandava a tradição: “Meu amigo secreto é uma pessoa difícil. Trabalha demais, ri de menos e acha que ninguém percebe que ele almoça sozinho todos os dias.” O silêncio ficou espesso. Alguns olharam para os sapatos. “É uma pessoa que eu conheço há muito tempo e, mesmo assim, não sei do que gosta. Então comprei uma coisa que ele sempre quis e nunca teve coragem de pedir.”
Abriu o pacote ele mesmo: era um livro de piadas, desses vendidos em banca de rodoviária. Depois tirou do bolso uma folha impressa, a planilha colorida da Joyce, e explicou que ela, num excesso de transparência contábil, tinha mandado o arquivo para o e-mail errado. “Eu acompanhei o mercado desde o primeiro dia”, disse. “Foi a melhor gestão de que eu já vi nesta empresa. A partir de janeiro, quero todos vocês nessa velocidade.” E então, pela segunda vez em onze anos, o doutor Hermes riu, dessa vez de si mesmo, o que, segundo dona Célia, contava em dobro.
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1. What did "pegar o boleto" mean in the office?
2. What did Priscila get from Ronaldo for passing on Hermes's name?
3. How had Hermes followed the market from the start?
4. What present did Hermes give his secret friend, himself?