Short story
O Peso do Ouro
An old clerk of the royal smelting house in Vila Rica writes down the day an enslaved woman brought him the gold to buy her freedom.
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Words to know (12)
- o escrivão · clerk, scribe
- a Casa de Fundição · royal smelting house
- o quinto · the Crown's fifth (gold tax)
- a bruaca · leather saddlebag
- o reinol · colonist born in Portugal
- a lavra · gold diggings
- o quitute · snack, homemade delicacy
- vosmecê · you (old respectful form)
- a alforria · manumission, freedom from slavery
- a oitava · old unit of gold weight (about 3.6 g)
- a limalha · metal filings
- a bateia · gold pan
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Escrevo isto em 1791, velho e quase cego, para que meu neto saiba que nem tudo o que pesei na vida foi ouro. Fui da Casa de de Vila Rica por vinte e seis anos. Por minha mesa passaram arrobas de ouro em pó, trazidas em em bolsas de couro, em canudos de pena de ganso. Eu pesava, anotava, separava o de Sua Majestade, e o resto voltava ao dono em barras marcadas com o selo real. Não havia trabalho mais honrado, diziam. Nem mais vigiado.
Numa manhã de março de 1758, entrou na sala uma mulher negra, descalça, com um lenço amarrado na cabeça e uma trouxa de pano apertada contra o peito. Chamava-se Luzia, era escravizada do capitão Fernão Guedes, um rico que tinha no Ribeirão do Carmo, e havia doze anos vendia nas ladeiras da vila: pastéis, angu, cocadas, aguardente. Cada vintém que sobrava, ela trocava por pó de ouro e escondia. Agora tinha juntado o preço da sua liberdade.
“Quero que pese na frente de todo mundo”, disse ela, e eu entendi logo. O capitão tinha fama de cobrar duas vezes o que já tinha recebido. Uma paga em segredo podia ser negada depois; um ouro pesado na Casa de diante do do Rei, deixava papel. Abri a trouxa. Dentro havia dezenas de saquinhos minúsculos, cada um de um tecido diferente, como se cada um guardasse um ano. Pesei. Cento e vinte um pouco mais do que o capitão tinha exigido. Eu me lembro de que ela não sorriu. Ficou olhando para a balança como quem olha um animal que pode fugir.
O capitão chegou à tarde, avisado por alguém. Era um homem alto, de cabeleira empoada e voz de quem nunca tinha esperado por ninguém. Olhou o ouro, esfregou um pouco entre os dedos e declarou, bem alto, que aquilo era pó misturado com areia e de ferro, que a negra o tinha roubado das dele e que o ouro, portanto, lhe pertencia. Depois se virou para mim. “O senhor vai confirmar, não vai?”
Eu tinha mulher, quatro filhos e uma casa alugada na Rua Direita. O capitão era compadre do Ouvidor. Bastava uma carta dele para que eu fosse mandado para um posto de registro perdido no caminho de Goiás, onde os morriam de febre. Senti o peso dessas coisas todas na mão, mais pesado que qualquer ouro. E pensei, Deus me perdoe, em dizer que sim.
Mas Luzia estava ali, parada, sem pedir nada. Não chorava, não implorava. Apenas esperava que eu dissesse a verdade, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se não lhe ocorresse que um homem branco de pena na mão pudesse mentir. Foi essa confiança que me envergonhou. Peguei o ímã que usávamos para separar a passei-o devagar sobre o pó, diante de todos, e não subiu um grão. Depois lavei uma amostra na Não havia areia. Escrevi no livro: ouro de boa qualidade, cento e vinte pertencente a Luzia, que o trouxe para pagar sua E assinei.
O capitão não me mandou para Goiás. Fez pior: proibiu que qualquer pessoa da sua roda me cumprimentasse, e por dez anos fui um homem invisível nas missas de domingo. Perdi uma promoção, depois outra. Minha mulher nunca me perdoou de todo. Mas o livro ficou, e o papel valeu: diante do registro assinado, o capitão não teve como recusar, e Luzia recebeu a carta de naquele mesmo ano.
Eu a vi muitas vezes depois. Comprou uma casinha perto da Igreja do Rosário, abriu uma venda e, anos mais tarde, comprou também a liberdade de uma sobrinha. Em 1780, quando o ouro já escasseava e meus filhos não tinham com que pagar o médico da mãe, foi ela quem me emprestou o dinheiro, sem juros, sem papel, sem testemunha. já pesou o meu uma vez”, disse. “Agora não precisa.” É por isso, meu neto, que lhe deixo esta carta. Há pesos que nenhuma balança registra.
Comprehension check
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1. Why did Luzia want her gold weighed at the smelting house?
2. What did the captain claim?
3. What made the clerk decide to tell the truth?
4. What did Luzia do for the clerk in 1780?